Em algum momento, todo o congelador se transforma numa espécie de cápsula do tempo gelada. Abres a porta, uma pequena nuvem de ar frio bate-te na cara e lá está: o meio saco de ervilhas do ano passado, a misteriosa caixa coberta de gelo, o pão que agora estala como esferovite de embalagem. Dizes a ti próprio que estás a “cozinhar em lote” e a “reduzir o desperdício alimentar”, mas no fundo sabes que também estás a construir um santuário de boas intenções. O congelador devia ser a nossa rede de segurança nos dias maus, não um cemitério de sobras esquecidas. E, no entanto, uma a uma, as coisas vão morrendo ali dentro, em silêncio.
Aqui está a reviravolta: muito desse desperdício não tem a ver com o que congelamos, mas com a forma como o fazemos. Pequenos hábitos - o recipiente errado, uma etiqueta feita à preguiça, uma gaveta tão cheia que mal fecha - estragam a comida muito antes do tempo. Alguns destes erros são tão comuns que nem parecem erros. Outros podem surpreender-te a sério. De qualquer forma, depois de os veres, já não dá para não ver.
1. Congelar carne na embalagem do supermercado
Conheces aquele momento em que atiras um tabuleiro de frango diretamente do saco das compras para o congelador, a dizer para ti próprio que depois “tratas disso como deve ser”? Esse “depois” nunca chega. Esses tabuleiros finos do supermercado e o plástico fraquinho mal foram feitos para aguentar a viagem até casa, quanto mais meses a temperaturas abaixo de zero. As bolsas de ar à volta da carne convidam a queimadura do congelador - aquela crosta acinzentada e coriácea que faz com que tudo cheire ligeiramente a cubos de gelo velhos quando finalmente cozinhas.
Embrulhar bem a carne é a diferença entre um assado suculento e algo que sabe a refeição de avião de 1998. Retira a carne do tabuleiro do supermercado, seca-a com papel de cozinha e depois embrulha-a bem apertada em papel próprio para congelar ou em folha de alumínio, expulsando o máximo de ar possível. Um saco de congelação por cima, com etiqueta, dá proteção extra e permite empilhar tudo de forma mais arrumada. Parece uma chatice depois de um dia de compras, mas a carne congelada dura mais e sabe muito melhor quando não está meio exposta ao ar gelado.
2. Colocar sobras ainda quentes
Todos já tivemos aquela noite em que a massa no forno finalmente fica pronta, a loiça suja olha para nós com reprovação e a única coisa que apetece é o sofá. A tentação de meter as sobras quentes em recipientes e tirá-las da vista é grande. Vai tudo diretamente para o congelador, tampa-se, assunto resolvido. Só que o congelador não é um portal mágico; é uma máquina que tem de trabalhar muito para baixar aquela temperatura, e a comida à volta sofre no processo.
Comida quente no congelador pode aumentar temporariamente a temperatura interna, descongelando parcialmente itens próximos e voltando a congelá-los depois. É aí que as texturas ficam estranhas e os cristais de gelo se multiplicam. Deixa a comida confecionada arrefecer na bancada até ficar apenas morna e depois coloca-a no frigorífico antes de congelar. Recipientes rasos ajudam a arrefecer mais depressa e reduzem o risco daquela camada de gelo suspeita, estilo “isto é sequer o quê?”, a cobrir tudo o que tens.
3. Usar qualquer recipiente que apareça
Aqueles recipientes reciclados de comida para levar parecem a ideia mais inteligente do mundo. Empilháveis, grátis, vagamente virtuosos. Mas nem todo o plástico foi feito para o frio; alguns ficam quebradiços, as tampas deformam e pequenas fissuras deixam entrar ar e gelo. Acabas com zonas secas na lasanha e um recipiente que se desfaz no instante em que tentas dobrá-lo “só um bocadinho” para tirar a comida.
Recipientes próprios para congelador não são apenas um truque de marketing. São mais espessos, vedam melhor e protegem a comida do ar frio e seco que rouba humidade. Se preferires sacos, escolhe os mais resistentes e retira o máximo de ar possível antes de fechar. É a diferença entre abrir uma gaveta arrumada, com jantares etiquetados, e encolher-te com uma avalanche de plástico deformado e tijolos congelados anónimos a cair em direção aos teus pés.
4. Congelar tudo num único bloco gigante
Há um tipo especial de arrependimento que vem de lutar com um bloco congelado de carne picada do tamanho de um livro de bolso às 18h. Só querias o suficiente para duas porções, não uma escultura de gelo. Acontece o mesmo com frutos vermelhos, fruta fatiada, até legumes preparados. Quando congelam num grande aglomerado, tens de descongelar mais do que precisas e uma parte acaba inevitavelmente no lixo.
A alegria de congelar “em plano”
Porcionar é aborrecido, mas o teu eu do futuro vai agradecer de forma ridícula. Achata coisas como carne picada, arroz cozido ou molhos em sacos de congelação, pressionando para formar folhas finas e retirando o máximo de ar possível. Congelam mais depressa, descongelam mais depressa e empilham-se como livros numa prateleira. Para frutos vermelhos, batatas fritas ou legumes cortados, experimenta o “congelamento em tabuleiro”: espalha num tabuleiro primeiro, congela até ficarem sólidos e depois passa para um saco. De repente, o congelador vira um “escolhe e mistura”, não um bloco de arrependimento.
5. Ignorar etiquetas e datas (e confiar na memória)
Sejamos honestos: ninguém escreve a data exata e a descrição completa em tudo o que congela, sempre, todas as vezes. Dizes a ti próprio que vais lembrar-te de que aquela caixa manchada de laranja é “caril de lentilhas de dezembro, definitivamente não é sopa de março do ano passado”. Passam meses. Numa terça-feira sombria, descongelas o que juravas ser bolonhesa e descobres que afinal é puré de maçã.
Uma caneta de marcador barata e um pacote de etiquetas simples mudam tudo. Não é preciso um sistema sofisticado; só o nome e o mês/ano chegam: “Chilli - Set 24”, “Caldo de frango - Jan 25”. A tua cabeça já tem com que lidar; não precisa de ser também o inventário do congelador. Desperdiças menos comida, planeias refeições mais depressa e aquelas caixas misteriosas deixam de gozar contigo do canto do fundo sempre que abres a gaveta.
6. Enfiar o pão onde couber
O pão congelado leva muitas culpas. As pessoas dizem que “sabe a velho” ou que “fica estranho”, quando na verdade tem mais a ver com onde e como é guardado. Pães atirados ao calhas para o congelador, sacos meio abertos, pão fatiado enfiado atrás do gelado sem tirar o ar - é pedir para secar. Ao fim de algumas semanas, começa a saber ao próprio congelador, com aquela nota ligeira de cartão gelado que nem a torradeira consegue esconder por completo.
Como evitar que o pão saiba a congelador
Se compras pão fatiado, tira o ar do saco antes de o atar bem apertado. Para pães de padaria, corta primeiro em fatias e depois embrulha porções em folha de alumínio ou coloca-as em sacos de congelação, expulsando o ar. Guardar o pão mais para o meio da gaveta, longe do jato de ar frio, ajuda a evitar que seque tão depressa. De repente, as torradas congeladas voltam a parecer um truque inteligente, não um compromisso triste.
7. Tratar as ervas como se fossem imortais
Em alguma fase, compras um grande molho de coentros ou salsa com grandes sonhos: salsa fresca, guarnições sofisticadas, talvez uma sopa digna de foto de livro de receitas. O que realmente acontece é um molho mole a murchar no frigorífico. Então fazes a coisa “virtuosa”: picas e atiras para um saco no congelador. Um mês depois, tiras e é um bloco verde e gelado que cheira vagamente a nada.
As ervas precisam de um pouco de carinho antes de encontrarem o frio. Pica-as e congela-as em cuvetes de gelo com um fio de azeite ou manteiga derretida, prontas a cair em molhos e guisados. Ou espalha-as num tabuleiro, congela e depois passa as folhas soltas para um saco, para poderes tirar uma pitada em vez de um bloco. Demora mais uns minutos num domingo à tarde, mas essas pequenas bombas de sabor parecem milagrosas numa quinta-feira à noite apressada.
8. Guardar gelado na porta do congelador
Há sempre aquela pessoa em casa que enfia o gelado na porta do congelador “para ser fácil de chegar”. Parece lógico. O problema é que esse é o sítio mais temperamental do congelador, sempre a levar com ar morno cada vez que alguém abre para ir às ervilhas ou às batatas fritas. O gelado amolece ligeiramente e volta a congelar, vezes sem conta, até ficares com aquela textura granulosa e gelada e uma triste barba de gelo à volta da tampa.
Se vais dar-te ao luxo de comprar um bom gelado, dá-lhe um bom lar. O fundo da zona principal é muito mais frio e estável, o que mantém a textura mais suave durante mais tempo. Coloca um pouco de papel vegetal ou película aderente diretamente sobre a superfície antes de fechar a tampa, para reduzir cristais de gelo. Parece preciosismo da primeira vez; depois provas a diferença e começas a fazê-lo sem pensar.
9. Encher o congelador até rebentar “para ser eficiente”
Há uma satisfação estranha em ver um congelador completamente abarrotado. Caixas empilhadas, sacos entalados, pacotinhos de coisas espremidos em qualquer espaço livre. Por fora parece poupado e organizado. Por dentro, o ar não circula como deve ser, o motor trabalha em esforço e começas a jogar aquele jogo perigoso de “se puxo uma coisa, será que o resto cai?”
Espaço, ar frio e aquela gaveta esquecida
Os congeladores gostam de estar razoavelmente cheios, mas não ao ponto de mania de Tetris. Se as gavetas estão a rebentar e tens de as forçar a fechar, a comida nas extremidades pode não congelar de forma tão uniforme e as novas adições quentes demoram mais a arrefecer. Vai trazendo os itens mais antigos para a frente de vez em quando e sê honesto sobre o que nunca vai ser comido. Há um alívio silencioso em deitar fora aquele saco de “qualquer coisa” de 2021 e devolver ao congelador algum espaço para respirar.
10. Pensar que “congelado é para sempre”
Existe um mito reconfortante de que, depois de congelada, a comida fica segura para toda a vida. Do ponto de vista da segurança alimentar, há alguma verdade nisso - a comida congelada não se torna subitamente perigosa só por estar lá há mais tempo. A qualidade é outra história. Os sabores esbatem-se, as texturas mudam e até comida bem embrulhada começa a saber ao “ruído de fundo” do congelador se ficar meses para lá do seu auge.
A comida congelada também tem o seu melhor momento, mesmo que não seja tão rígido como as datas dos frescos. A maioria das refeições congeladas em casa está no seu ponto ideal durante três a seis meses; carne e peixe podem durar mais se forem bem embalados, mas não são imortais. Uma regra simples: se não te lembras de a ter congelado, provavelmente já passou do melhor. Criar o pequeno hábito de espreitar o congelador antes de fazer a lista de compras pode poupar dinheiro, tempo e um bocadinho de culpa todas as semanas.
Um lugar mais frio, uma vida mais quente
O congelador fica ali a zumbir num canto, a fazer o seu trabalho discreto e pouco glamoroso. Batemos-lhe com a porta, enchêmo-lo demais, esquecemo-nos do que lá pusemos e depois culpamo-lo quando as coisas saem geladas ou sem graça. Na maior parte das vezes, não é a máquina que nos falha; são os pequenos atalhos e os “depois trato disso” que se acumulam. A boa notícia é que não precisas de uma folha de cálculo nem de uma despensa de Pinterest para mudar isso.
Muda alguns hábitos - embrulha melhor, arrefece antes, etiqueta, deixa um pouco de espaço - e o congelador passa a ser o que devia: um cérebro de reserva, um salvador a meio da semana, um pequeno alívio nos dias em que estás a funcionar a vapor. Talvez até o comeces a abrir sem aquela pontada de receio. E se, algures no fundo, ainda encontrares um triste mistério irreconhecível coberto de gelo? Sorri, deita fora e vê nisso uma prova: tu e o teu congelador estão a aprender a fazer isto de forma diferente agora.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário