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Nao espere que o gato va ter consigo crie as condicoes para que ele queira por iniciativa propria

Gato a caminhar num piso de madeira, com pessoa em posição de meditação ao fundo.

A noite em que percebi que eu estava a “chamar”, mas não estava a convidar

A pergunta aparece vezes sem conta: “O meu gato não vem ter comigo, o que faço?”. A tentação é insistir, como se a voz resolvesse. Com gatos, raramente resolve: eles respondem menos ao “chamamento” e mais ao que o ambiente lhes comunica (segurança, previsibilidade, controlo).

A forma mais prática de olhar para isto é simples: não espere que o gato vá ter consigo. Crie condições para que ele queira - por iniciativa própria, sem pressão e sem “testes” (pegar ao colo, forçar festas) que só aumentam a desconfiança.

Lembro-me de um serão: sofá, almofada batida, o som parvo do costume. Ele apareceu ao fundo do corredor, avaliou… e foi-se embora. Na altura levei a mal. Depois percebi: o gato não está a rejeitar “a sua pessoa”. Está a dizer “aqui, agora, isto não me parece seguro/interessante/útil”.

Para muitos gatos, a iniciativa nasce sobretudo de duas coisas: previsibilidade (saber o que acontece a seguir) e controlo (poder aproximar-se e desistir). Troque o “vem cá” por uma pergunta mais útil: “o que é que eu posso ajustar para que vir cá faça sentido para ele?”

A “Regra dos 7 Minutos no Chão” (e porque funciona melhor do que chamar)

Um hábito pequeno, repetível e eficaz: 7 minutos no chão, 2 vezes por dia, sem chamar o gato. É curto o suficiente para não virar “pressão”, mas longo o suficiente para ele observar, aproximar-se e recuar sem consequências.

O objetivo não é “conseguir festinhas”. É baixar o risco: corpo mais baixo, movimentos mais lentos, menos ocupação do espaço. Para muitos gatos, um humano em pé é grande e imprevisível; um humano no chão tem contornos mais fáceis de ler.

Regra de ouro nesses 7 minutos: não vá atrás dele. Aproximação só é iniciativa se ele puder desistir.

O que fazer nesses 7 minutos (sem parecer um exercício de paciência)

  • Sente-se de lado (não de frente), ombros soltos, mãos quietas.
  • Olhe de vez em quando, sem fixar; se cruzarem o olhar, piscar lento e desviar ajuda a “baixar a tensão”.
  • Se ele vier cheirar, não avance com a mão. Deixe-o recolher informação (cheiro primeiro, contacto depois).
  • Se ele tocar em si, mantenha tudo calmo e previsível; pare antes dele ter de se afastar.

Isto funciona porque é “pouco”: o gato aprende que a sua presença não exige performance - e que pode estar perto sem perder controlo.

O que o gato está a avaliar (e o que nós insistimos em ignorar)

Muitas vezes não é “ele não gosta de mim”. É uma auditoria diária ao ambiente:

  1. Tenho rotas de fuga?
    Se para chegar a si ele tiver de atravessar um “beco sem saída” (corredor estreito, canto do sofá, porta fechada), vai hesitar.

  2. Posso observar sem ser tocado?
    Muitos aproximam-se melhor quando conseguem estar perto sem serem “apanhados”.

  3. O que acontece quando eu me aproximo?
    Se a resposta habitual for “mãos em cima de mim”, a iniciativa morre depressa.

  4. O lugar cheira a mim também?
    Cheiro é segurança. Limpeza com perfumes fortes (ambientadores, sprays, detergentes muito perfumados) pode tornar um sítio “estranho”. Não é para deixar sujo - é para não “apagar” sempre os pontos onde ele se sente em casa.

A boa notícia: quase tudo isto melhora com ajustes pequenos, não com “mais mimos”.

As condições que mudam o jogo (sem transformar a casa num parque temático)

Pense em reduzir fricção. Não precisa de encher a casa de coisas; precisa de criar escolhas claras e fáceis.

1) Crie “meios-termos” entre longe e colo

Poucos gatos passam de “não me toques” para “colo” num salto. Precisam de degraus:

  • Manta numa cadeira ao lado do sofá (não no sofá).
  • Arranhador alto/prateleira numa zona social, com saída fácil.
  • Cama a 1–2 m de onde costuma estar.

Se o único sítio “perto de si” for o seu colo, está a pedir um salto grande demais. E atenção a um detalhe prático: bases instáveis (cadeiras que abanam, arranhadores leves) aumentam a cautela - estabilidade ajuda confiança.

2) Faça do toque uma escolha, não um evento

Em vez de “ir a ele”, ofereça um ponto neutro: um dedo parado ao nível do nariz. Se ele esfregar, ele está a iniciar (e está a “marcar” com cheiro, que é uma forma de confiança).

Quando ele iniciar, toque curto (2–3 segundos) e pare. Regra prática: termine enquanto ele ainda está confortável. Sinais de “já chega” incluem cauda a bater, pele a estremecer, orelhas a rodar para trás, corpo a endurecer, ele prender o olhar na mão ou virar a cabeça para a mão (muitas vezes é o aviso antes da dentada).

3) Troque comida “solta” por micro-rituais

Não é suborno; é previsibilidade. Um ritual igual, curto e legível:

  1. Diga sempre a mesma palavra (“petisco”, “vamos”).
  2. Pouse o petisco no chão a cerca de 1 m de si.
  3. Dê um passo atrás e fique quieto.

Use pedaços minúsculos e, em regra, mantenha petiscos como uma parte pequena da dieta diária (muita gente aponta para um máximo de ~10%). Se necessário, retire um pouco da ração do dia para compensar - especialmente em gatos com tendência a ganhar peso (muito comum em gatos de apartamento).

4) Brinque como um gato, não como um humano

Erro comum: agitar o brinquedo em cima da cabeça do gato. Para ele, isso pode ser pressão e confusão.

Use a sequência felina:

  • Esconder (atrás de uma cadeira, canto do tapete)
  • Fugir (presa afasta-se do gato, em ziguezague)
  • Pausar (silêncio e imobilidade criam intenção)
  • Recompensar (terminar com algo que ele “apanha”)

Cinco minutos bem feitos, 1–2 vezes por dia, costumam valer mais do que 20 de insistência. Se usar laser, termine sempre com um brinquedo “capturável” (ou um petisco) para fechar o ciclo e reduzir frustração.

Os pequenos erros que fazem o gato desistir de si (mesmo quando “parece que está tudo bem”)

Para nós é carinho; para eles pode ser pressão. E o traiçoeiro é que o gato tolera… até deixar de tolerar.

  • Inclinar-se por cima para fazer festas: parece ataque “vindo do céu”.
  • Fixar o olhar: em linguagem felina, é confronto.
  • Rir e ir atrás quando ele foge: transforma fuga em jogo e jogo em stress.
  • Acordá-lo para dar mimo: ensina que descanso não é seguro.

Regra simples: não recompense a aproximação com excesso. Aproximação é frágil - constrói-se por repetição, não por intensidade.

O que isto não resolve (e quando vale mesmo a pena pedir ajuda)

Isto não “corrige” dor, ansiedade séria ou trauma. Se ele se esconde grande parte do dia, reage com agressividade ao toque, ou se houve mudança súbita, comece por saúde.

Dor dentária, artrite (muito comum em gatos mais velhos), problemas urinários e hipertiroidismo podem reduzir tolerância ao contacto. Um gato desconfortável não fica mais carinhoso com técnica; fica mais defensivo. Pistas úteis: deixa de saltar para sítios altos, falha saltos, lambe-se menos, rosna ao ser tocado, ou muda subitamente o padrão de aproximação.

E há temperamentos: alguns serão sempre mais independentes. O objetivo não é transformar o seu gato noutro - é aumentar segurança e confiança para ele mostrar a melhor versão dele.

O seu “experimento” de 7 dias (sem esforço heróico)

Uma semana simples e mensurável:

Durante 7 dias:

  • 7 minutos no chão, de manhã e ao fim do dia, sem chamar o gato.
  • 1 sessão de brincadeira de 5 minutos (com pausas e “presa” a fugir).
  • 3 petiscos por dia em modo “aproximar e escolher” (no chão; sem mão a agarrar).
  • Zero perseguições. Zero pegar ao colo “só para ele se habituar”.

No fim, não avalie por “já veio para o colo”. Avalie por sinais pequenos e reais: fica mais tempo na mesma divisão, aproxima-se para cheirar, pisca lentamente, deita-se de lado, marca com a cara em móveis perto de si, passa por si sem se afastar - ou recupera mais depressa depois de um susto.

Aquela mudança discreta que faz o gato escolher a sua companhia

É libertador deixar de “convencer” e passar a “preparar”. O gato não precisa de ser ganho; precisa de ter opção. Quando a opção é segura, consistente e até divertida, ele aproxima-se.

Um dia, você está no sofá a fazer a sua vida e ele salta para perto como se sempre tivesse sido ideia dele. E, de certa forma, foi.

FAQ:

  • Como sei se o meu gato não vem por medo ou por personalidade?
    Medo costuma vir com corpo baixo, cauda encolhida, vigilância e fugas rápidas; personalidade mais independente vem com calma e distância “confortável”. Se a mudança for súbita (dias/semanas), descarte primeiro dor/saúde com o veterinário.

  • Devo pegar nele ao colo para ele “se habituar”?
    Em geral, não. Habituar por imposição ensina que proximidade = perda de controlo. É melhor construir degraus (ficar perto, cheirar, toque curto) e deixar o colo ser uma escolha.

  • Petiscos não criam vício ou “manipulação”?
    Petiscos criam previsibilidade e associação positiva. Use quantidades pequenas, ajuste a comida do dia e prefira opções simples (sem “cheiros” muito intensos se ele for sensível).

  • O que faço se ele só vier quando eu tenho comida?
    Mantenha os rituais, mas inclua momentos sem recompensa (os 7 minutos no chão). Com consistência, a sua presença ganha valor próprio - e a comida deixa de ser o único motivo para se aproximar.

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