Aquele silêncio pesado do escritório ao fim da tarde, quando os e-mails abrandam e toda a gente finge que ainda está a ser produtiva.
Depois alguém se levantou da secretária. Um passo, depois dois… squeak. O som ricocheteou no chão polido, agudo e ligeiramente embaraçoso. Algumas cabeças levantaram-se dos ecrãs, só por um segundo. Quem caminhava abrandou, a tentar pousar os pés com mais cuidado. O que, de algum modo, só piorou. Squeak. Squeak. Squeak.
Olharam para os sapatos, como se a traição se resolvesse a fixá-los. Os mesmos sapatos de ontem, o mesmo chão. Ontem: silêncio. Hoje: banda sonora de desenho animado. Junto à máquina de café, uma colega sussurrou: “És tu? Pensei que havia um pássaro preso aqui.” Riram-se, mas via-se aquele pequeno lampejo de autoconsciência.
Porque é que alguns sapatos começam de repente a chiar em pisos duros… e depois param de forma igualmente misteriosa?
A conversa estranha entre os teus sapatos e o chão
A maioria das pessoas culpa os sapatos. “Solas baratas”, “má qualidade”, “já estão velhos”. Às vezes têm razão; muitas vezes, não. O que está realmente a acontecer parece mais uma conversa estranha entre as tuas solas e a superfície por baixo dos pés. O pé pressiona, o material dobra, agarra, depois solta. Esse ciclo minúsculo de “agarra-e-escorrega” pode transformar-se num chiar agudo se alguma coisa estiver ligeiramente fora do sítio.
Os pisos duros tornam essa conversa mais alta. Azulejo, betão polido, mármore, madeira envernizada: são implacáveis. Refletem o som e sublinham cada microfricção. Uma sola de borracha que é silenciosa em alcatifa pode, de repente, soar como um campo de basquetebol num ladrilho brilhante. O ruído não quer dizer que os sapatos estejam estragados. Quer dizer que estão a reagir.
A nível microscópico, é nesse momento de “agarra-escorrega” que acontece o drama invisível. Quando a sola encontra uma superfície lisa e dura, partes dela aderem por instantes e depois soltam-se de rompante à medida que o peso avança. Essa “soltura” cria vibrações. Em terreno rugoso, essas vibrações são absorvidas. Num chão lustroso de um átrio, propagam-se e ecoam. É por isso que o mesmo par de sapatilhas pode parecer furtivo na rua e ridiculamente barulhento no corredor de um supermercado.
Há ainda um fator de humidade que a maioria ignora. Um pouco de humidade no chão, uma película fina de produto de limpeza, uma marca de suor presa na palmilha: tudo isso altera a forma como os materiais deslizam e agarram. Às vezes, o ruído é literalmente o som de pequenas bolsas de ar e humidade a serem espremidas entre camadas. O verdadeiro culpado muitas vezes não é só o sapato, nem só o chão, mas a relação entre os dois.
Todos já passámos por isso ao entrar numa sala de espera silenciosa ou numa loja de luxo, a rezar para que o próximo passo não nos anuncie como uma trombeta. É aí que entra a camada emocional deste ruído. Não é apenas física; é a sensação de estar “demasiado alto” num espaço que espera que deslizes.
Dentro do sapato: onde o chiar nasce mesmo
Por vezes, o chiar não vem da sola. Vem de dentro do sapato. Se a palmilha estiver ligeiramente solta, ou se uma camada de espuma estiver a roçar em plástico ou couro, cada passo vira um pequeno concerto de fricção. É por isso que podes ouvir o ruído mesmo em pisos mais macios. O pé comprime o material, ele roça, um pouco de ar move-se entre camadas, e o som sai pelo ponto mais frágil.
Aqui, a humidade é uma vilã silenciosa. Suor, chuva, ou até uma lavagem apressada na torneira podem encharcar o material e mudar a forma como se move. Uma palmilha húmida agarra mais, dobra-se de outra maneira e pode raspar o suficiente na entressola para “piar”. De manhã, calças os sapatos e parecem normais. Depois de algumas horas a andar, os materiais aquecem, expandem-se ligeiramente e começam a “responder”.
A cola e as costuras também têm voto na matéria. Quando o adesivo começa a envelhecer ou a descolar parcialmente, surgem pequenas folgas entre camadas da sola. Cada passo empurra ar para dentro e para fora dessas folgas. Isso pode criar um assobio ténue ou um chiar claro e agudo. Sapatos acabados de comprar também podem fazer isto se uma costura estiver demasiado tensa no sítio errado. Por isso é que ténis novos podem chiar no primeiro dia e depois acalmar gradualmente à medida que a estrutura “assenta”.
Alguns fabricantes usam plásticos mais rígidos na entressola ou na haste (shank) para dar estabilidade. Isso é ótimo para suporte, mas menos bom quando essas peças começam a roçar. A peça plástica escondida que impede o sapato de dobrar ao meio pode raspar ligeiramente na espuma à volta. O resultado: um chiar que parece vir de todo o lado e de lado nenhum. Podes mudar de meias, mudar de piso, andar mais devagar… o ruído continua a seguir-te como uma sombra.
Como silenciar o chiar sem estragar os sapatos
Há uma forma simples de diagnosticar a origem. Tira o sapato. Dobra a sola com as mãos. Se ouvires o chiar, provavelmente está nas camadas da sola. Se ficar silencioso, calça o sapato e roda o pé suavemente. Agora há ruído? Então vem de dentro, por baixo ou à volta do pé. A partir daí, podes tentar correções pequenas e direcionadas em vez de truques ao acaso.
Para solas que chiam em pisos duros, um “deslustre” suave pode ajudar. Uma fricção ligeira com um pano seco, ou até andar um pouco numa superfície mais áspera no exterior, pode remover aquela película escorregadia de fábrica. Algumas pessoas polvilham uma quantidade mínima de talco na sola exterior e depois limpam o excesso. Isso reduz ligeiramente a aderência extrema que provoca o “agarra e solta” brusco. Só não transformes as solas numa pista de gelo. Queres menos chiar, não menos aderência.
Se o problema for dentro, as ferramentas mudam. Retira a palmilha, se for possível. Deixa o sapato e a palmilha a secar separadamente durante a noite, num local normal e arejado. Sem aquecedores diretos. Uma fina camada de pó de bebé, amido de milho (maizena) ou bicarbonato de sódio por baixo da palmilha pode absorver a humidade e reduzir a fricção. Para sapatos sem palmilhas removíveis, algumas pessoas colocam uma camada muito fina de papel de lenço ou tecido muito fino sob a palmilha, como um pequeno “amortecedor”.
Quase ninguém tem paciência para fazer isto com todos os pares. Sejamos honestos: ninguém faz mesmo isto todos os dias.
Às vezes, a solução é surpreendentemente emocional. Compraste aqueles sapatos para uma entrevista de emprego, um casamento, o teu primeiro escritório “de adulto”. Querias confiança, não um efeito sonoro. Um podologista de Londres disse-me numa entrevista:
“As pessoas chegam ao meu consultório genuinamente envergonhadas com os sapatos barulhentos. Acham que é falta de higiene ou falta de educação. Na maioria dos casos, é apenas a física dos materiais a portar-se mal.”
Portanto, sim, podes tentar truques caseiros. Uma gota minúscula de spray de silicone num cotonete, aplicada com cuidado onde duas partes roçam. Um pedaço de feltro colado por baixo de uma lingueta solta. Ou simplesmente alternar pares para que um possa secar totalmente entre utilizações. Em caso de dúvida, um sapateiro pode mexer, dobrar e ouvir de formas que revelam exatamente onde vive a fricção.
- Deixa os sapatos secarem totalmente 24 horas entre utilizações intensas.
- Limpa as solas com cuidado se os pisos tiverem resíduos ou película de produtos de limpeza.
- Testa sapatos novos em pisos duros em casa antes de um dia importante.
- Usa pó com moderação no interior, não como solução permanente.
- Consulta um sapateiro se o chiar persistir junto a costuras ou no calcanhar.
Viver com o ruído… ou desligá-lo
Há algo quase íntimo na forma como os sapatos soam. Dizem coisas sobre nós antes mesmo de falarmos. Sapatilhas silenciosas numa biblioteca, saltos secos no mármore, solas de borracha em pisos de hospital. Quando surge um chiar aleatório, parece que os teus próprios pés estão a trair o guião que tinhas na cabeça. O ruído lembra-te que estás visível, audível, exposto.
Quando percebes que o chiar muitas vezes vem de pequenos gestos mecânicos entre materiais, ele perde um pouco do poder. Não é uma falha moral, nem prova de que os sapatos são baratos, nem sinal de que andas “mal”. É apenas borracha a falar com o ladrilho, espuma a roçar no plástico, humidade a deslocar-se sob pressão. Podes experimentar, mudar de meias, secar melhor, tornar a sola ligeiramente mais áspera, falar com um sapateiro. Ou podes decidir que este par será o teu par “barulhento” e reservá-lo para ambientes ruidosos.
Há uma liberdade silenciosa nessa escolha. Ou tentas calar o som, ou aceitas que alguns pisos e algumas solas simplesmente não se dão bem. Da próxima vez que ouvires alguém a chiar nervosamente num escritório luminoso ou num corredor com eco, talvez vejas a cena de outra maneira. Não como algo ridículo, mas como um pequeno momento humano partilhado. Um lembrete de que até os nossos objetos mais práticos têm personalidade e, por vezes, guincham.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Origem do chiar | Fricção “agarra-escorrega” entre sola, piso e camadas internas | Perceber que o ruído não é necessariamente um defeito grave |
| Papel da humidade | Suor, água e produtos de limpeza alteram a aderência | Identificar quando secar ou arejar os sapatos pode ajudar |
| Soluções práticas | Retirar o brilho da sola, aplicar pó ligeiro, consultar um sapateiro | Ter ações concretas para reduzir ou eliminar o chiar |
FAQ:
- Porque é que os meus sapatos só chiam em certos pisos? O chiar costuma aparecer em superfícies muito lisas e duras, onde a sola consegue aderir e depois escorregar de repente. Pisos mais rugosos absorvem essa fricção em vez de a transformarem em som.
- Sapatos novos podem chiar mesmo sendo de boa qualidade? Sim. Borracha nova, costuras apertadas e peças internas rígidas podem criar ruído no início. Muitos pares ficam mais silenciosos após um curto período de adaptação.
- O pó de bebé (talco) pára mesmo o chiar dos sapatos? Pode ajudar se o ruído vier de humidade ou fricção dentro do sapato. Uma camada leve por baixo da palmilha reduz muitas vezes o roçar, mas raramente é uma cura permanente.
- Um sapato a chiar é sinal de que está prestes a desfazer-se? Não necessariamente. Às vezes indica cola solta ou uma folga na sola, mas muitas vezes é apenas a forma como os materiais estão a interagir. Se vires rachadelas ou descolamento, aí sim é um problema de durabilidade.
- Quando devo levar sapatos a chiar a um profissional? Se o ruído for constante, vier de um ponto específico (como o calcanhar), ou tiver começado logo após dano ou uso intenso, um sapateiro ou oficina de reparação consegue diagnosticar e corrigir o ponto exato de fricção.
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