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Aviso Atlântico Norte: orcas estão a atacar navios comerciais em ações coordenadas, alertam especialistas.

Homem observa orcas do convés de um navio, vestindo colete laranja e capacete, usando binóculos e apontando para o mar.

O capitão cortou os motores e o mundo ficou em silêncio.

Apenas o estalar das ondas no aço, uma tosse nervosa na ponte e o sopro distante de algo enorme, mesmo por baixo da superfície. Três barbatanas negras cortaram a ondulação à proa, movendo-se com uma precisão preguiçosa. Depois, como se respondessem a um sinal silencioso, viraram todas ao mesmo tempo e seguiram direitas ao leme.

No radar, parecia ruído. Na água, parecia intenção. O primeiro embate fez estremecer o casco, fez tilintar canecas e levou um marinheiro novo a praguejar entre dentes. O segundo foi mais forte. O navio desviou alguns graus do rumo enquanto as luzes de aviso piscavam na sala de controlo.

Algures no Atlântico Norte, um navio de carga acabava de ser apresentado a uma nova e inquietante realidade. As orcas já não estão apenas de passagem. Estão a interagir.

As orcas estão a mudar as regras no mar

Durante anos, as orcas no Atlântico Norte foram um cenário espetacular nas rotas marítimas - um bónus selvagem em travessias longas e cinzentas. Agora, as tripulações falam delas em voz baixa, como se falar demasiado alto pudesse chamá-las. Os relatos de orcas a visarem deliberadamente lemes e cascos acumulam-se de Espanha à Islândia.

As autoridades marítimas chamam-lhes “incidentes”. Os marinheiros chamam-lhes outra coisa, por completo. No convés, o padrão parece claro: várias orcas aproximam-se, circulam e depois convergem para o sistema de governo com um foco aterrador. Não se limitam a encostar. Trabalham o navio como um problema a resolver.

O que mais abala os veteranos é a coordenação. Não são toques aleatórios em mau tempo. Parecem encontros planeados, executados por animais que sabem exatamente onde magoar uma embarcação.

Em 2020, os primeiros relatos estranhos começaram a chegar de iates ao largo da Península Ibérica. Alguns veleiros contactaram as autoridades costeiras, ainda a tremer, descrevendo orcas a bater repetidamente no leme. Soava a comportamento estranho e isolado. Algo para arquivar como “a natureza a ser imprevisível”.

Em 2023, os números já não eram uma curiosidade. Dezenas de embarcações - sobretudo iates e barcos de pesca mais pequenos, mas agora também navios comerciais - reportaram encontros semelhantes. Alguns ficaram sem governo. Alguns tiveram de ser rebocados de volta ao porto, com lemes torcidos como braços partidos.

O que inquietou os especialistas foi a rapidez da propagação. Grupos separados por centenas de milhas começaram a mostrar táticas semelhantes. Um caso ao largo da Galiza, outro no Estreito de Gibraltar, um terceiro perto do Golfo da Biscaia - todos com pormenores coincidentes. Como se um novo truque perigoso estivesse a espalhar-se pela cultura das orcas, em tempo real.

Os biólogos marinhos escolhem as palavras com cuidado, mas até eles parecem inquietos quando falam publicamente. As orcas são famosas por aprender e partilhar técnicas: alinhar ondas para derrubar focas de placas de gelo, sincronizar caçadas, ensinar os juvenis a desmanchar peixe com precisão cirúrgica. Agora, essa mesma inteligência parece estar direcionada para navios.

Uma das teorias principais fala de uma “moda cultural” - um comportamento que se espalha socialmente sem benefício direto de sobrevivência. Outra liga o fenómeno a trauma: talvez uma orca específica ferida por uma embarcação há anos, transformando a dor num padrão que outras copiaram. Ninguém consegue provar nenhuma das hipóteses.

No que concordam é nisto: os embates concentram-se no leme, o ponto fraco da manobrabilidade de qualquer navio. Os animais batem, mordem, torcem e depois afastam-se, quase como se estivessem a “ler” a resposta da embarcação. Esse tipo de circuito de feedback parece desconfortavelmente parecido com experimentação. Ou treino.

Como os navios e as tripulações estão a tentar adaptar-se

Perante um predador altamente inteligente e sem medo de hélices, as tripulações estão a improvisar. Uma das primeiras táticas testadas no Atlântico Norte é o controlo de velocidade. Recomenda-se aos capitães que reduzam a velocidade se as orcas aparecerem, diminuindo ruído e turbulência e tornando o navio menos estimulante como “brinquedo”.

Alguns navios põem o motor em ponto-morto e deixam os animais passar, transformando o encontro num objeto flutuante e aborrecido, em vez de uma máquina ruidosa para desafiar. Outros ajustam ligeiramente o rumo, não para fugir, mas para expor menos superfície de leme a um impacto direto.

Não há um gesto mágico que funcione sempre. Mas os navios que reagem com calma, com ajustes medidos em vez de manobras de pânico, tendem a reportar interações mais curtas e menos violentas. O oceano não recompensa o dramatismo.

Orientações oficiais circulam agora em portos de Lisboa a Reiquiavique: não atirar objetos às orcas, não as ensurdecer com buzinas, não tentar “contra-atacar”. Esse reflexo é forte em travessias longas e stressantes - e compreensível. Ainda assim, as tripulações estão a aprender, à força, que escalar a situação só alimenta o interesse dos animais.

Alguns capitães partilham discretamente as suas regras não escritas ao café: reduzir as luzes do convés à noite para não chamar atenção, minimizar correções bruscas de governo, manter vibrações desnecessárias baixas. Alguns falam de momentos em que não fazer nada - apenas aguentar - pareceu a opção menos má.

Todos já vivemos esse momento em que cada instinto grita “age já”, e, no entanto, a jogada mais inteligente é esperar. No mar, com um grupo de orcas a martelar o teu leme, essa paciência torna-se um teste muito físico aos nervos. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.

Investigadores que acompanham viagens em navios comerciais descrevem uma mistura emocional estranha a bordo: deslumbramento, medo, admiração relutante. Uma ecóloga marinha disse-me que oficiais experientes não conseguem deixar de respeitar o que estão a ver, mesmo enquanto registam danos e preenchem formulários de seguros.

“Isto não é agressividade sem sentido”, diz a Dra. Marta López, especialista em cetáceos que tem acompanhado os incidentes. “Parece brincadeira, frustração, curiosidade, talvez até vingança aprendida. Mas é organizado. É isso que mantém as pessoas acordadas à noite.”

Para manter as coisas concretas para tripulações e passageiros curiosos, algumas companhias de navegação já divulgam briefings internos com listas simples como:

  • Registar cada encontro com hora, posição, velocidade do navio, meteorologia e comportamento.
  • Reduzir a velocidade e evitar guinadas bruscas se as orcas se aproximarem da popa.
  • Manter a comunicação clara na ponte - uma só voz a comandar, sem gritaria.
  • Reportar incidentes graves às autoridades marítimas nacionais em poucas horas, não dias.
  • Fazer um debriefing com a tripulação depois; a tensão não dita tende a crescer.

Não é um escudo perfeito. Ainda assim, transforma uma experiência crua e assustadora em algo que pode ser documentado, estudado e, talvez, um dia, antecipado.

Uma nova relação com um vizinho muito antigo

O Atlântico Norte sempre foi um espaço partilhado. Os marinheiros gostam de falar como se o mar pertencesse a quem o consegue atravessar, mas as orcas estavam lá muito antes de as rotas marítimas e os trilhos de GPS riscarem linhas azuis nas cartas. O que está a mudar agora é que esse espaço partilhado já não parece um pano de fundo - parece uma negociação ativa.

Quando o capitão de um cargueiro de 200 metros diz, com toda a seriedade, que se sente observado por um grupo de baleias, algo no nosso mapa mental do oceano muda. Não são obstáculos sem rosto. São agentes. Respondem-nos, e nós estamos a ser forçados a responder também.

Isso levanta perguntas desconfortáveis. Se estes ataques coordenados continuarem a espalhar-se, desviamos grandes corredores marítimos? Reforçamos lemes com novos materiais? Desenvolvemos dissuasores sonoros que possam funcionar - mas que arriscam stressar todo o ecossistema?

Cada opção tem um custo. Reforçar navios implica custos industriais. Empurrar rotas mais para norte ou para sul desloca o impacto ambiental para outras zonas frágeis. Dissuadores acústicos podem quebrar o padrão das orcas, mas também baralhar os sentidos de espécies que nada fizeram além de partilhar a água connosco.

Há ainda uma camada inquietante, quase de ficção científica, nesta história que prende as redes sociais. Vídeos de orcas a atacar iates tornam-se virais não só por serem dramáticos, mas porque tocam num nervo cultural profundo: a ideia de que a natureza está finalmente a responder - com inteligência, em vez de força bruta.

As pessoas projetam nestes animais - chamando-lhes rebeldes, eco-guerreiras, vingadoras de um mar ruidoso e sufocado por plástico. A realidade é provavelmente mais banal e mais complexa: aprendizagem social numa espécie muito inteligente, a desenrolar-se num mundo que transformámos num labirinto cheio, vibrante, de cascos.

Ainda assim, é difícil não sentir que algo simbólico está a acontecer lá fora, entre as ondas e o aço.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Comportamento coordenado das orcas Ataques que visam sobretudo os lemes, feitos em grupo com um padrão recorrente. Perceber por que razão estes incidentes já não são simples “encontros com a vida selvagem”.
Propagação rápida dos incidentes Casos reportados do Atlântico Leste até ao Norte, com táticas semelhantes entre grupos distintos. Medir a dimensão do fenómeno e a sua evolução potencial.
Adaptação das tripulações Alterações de velocidade, protocolos calmos, recolha de dados para investigadores. Saber como o mundo marítimo reage e o que pode realmente limitar os riscos.

FAQ

  • As orcas estão mesmo a “atacar” navios, ou é apenas brincadeira? Os especialistas inclinam-se para brincadeira complexa e aprendizagem social, possivelmente desencadeadas por um evento traumático, mas os danos são muito reais para as embarcações envolvidas.
  • Houve pessoas feridas nestes incidentes com orcas? Até agora, os relatos centram-se em danos nos lemes e cascos; as tripulações descrevem medo e stress, mas não há ferimentos diretos confirmados causados pelas próprias orcas.
  • Porque é que as orcas visam o leme em particular? O leme move-se, vibra e controla diretamente o rumo do navio, o que o torna simultaneamente interessante para interação e altamente vulnerável.
  • Os navios podem defender-se legalmente contra orcas? A maioria das regulamentações desencoraja fortemente respostas agressivas; as orcas são protegidas em muitas regiões, e feri-las pode trazer consequências legais e ecológicas.
  • É provável que este comportamento pare por si só? Ninguém sabe. Algumas “modas culturais” em grupos de orcas desaparecem ao fim de anos; outras tornam-se tradições de longo prazo transmitidas entre gerações.

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