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Conheces o Kaiserschmarrn, o primo super fofo das crêpes de que todos agora falam?

Mãos preparam sobremesa na frigideira com compota e chantilly ao lado. Café e ameixas no fundo.

Some desserts stay politely in their lane.

Depois, há outros que chegam à mesa em pedaços desarrumados e roubam o espectáculo todo.

Das tradicionais casas de café de Viena aos feeds do TikTok em Londres e Nova Iorque, uma sobremesa à moda antiga está discretamente a voltar: kaiserschmarrn, uma panqueca rasgada, leve como uma nuvem, que parece um erro e sabe a pequena celebração.

O que é exatamente o kaiserschmarrn?

O kaiserschmarrn vem da Áustria, onde há muito tempo ocupa um lugar nas ementas dos cafés ao lado da sachertorte e do strudel de maçã. À primeira vista, até parece que está errado. Em vez de um crepe redondo e certinho ou de uma pilha de panquecas à americana, surgem pedaços dourados e irregulares de massa, partidos na frigideira e amontoados numa montanha quente e açucarada.

A massa fica algures entre os crepes franceses e as panquecas mais espessas. Leva farinha, ovos, leite e açúcar, mas com um pormenor essencial: as claras são batidas à parte até ficarem fofas e depois envolvidas. Esse passo simples enche a massa de ar e dá ao prato final uma textura leve, quase de soufflé.

Pense no kaiserschmarrn como o primo rebelde dos crepes: rasgado de propósito, extra fofo e feito para ser partilhado diretamente da frigideira.

Tradicionalmente, os cafés servem-no quente sob uma nuvem de açúcar em pó, muitas vezes com uma taça de compota de fruta ao lado. Os turistas em Viena depressa percebem que pedir kaiserschmarrn é quase um rito de passagem, tão comum como uma fatia de sachertorte.

Uma história real por trás do crepe “desarrumado”

O nome parece complicado, mas esconde um significado simples. “Kaiser” refere-se ao imperador, e “Schmarrn” é uma palavra do alemão austríaco que pode significar disparate, confusão ou um prato “mexido”. Segundo historiadores da gastronomia, a sobremesa ficou ligada ao Imperador Francisco José I, que alegadamente ganhou gosto por esta panqueca rústica e rasgada e ajudou a transformá-la num clássico da cozinha da era imperial.

Circulam várias lendas sobre a sua origem. Uma história fala de um cozinheiro que tentou fazer um crepe elegante para a imperatriz, falhou ao virá-lo com perfeição e acabou por servi-lo em pedaços, coberto de açúcar para disfarçar o estrago. O imperador gostou tanto do resultado que o “erro” ficou no menu.

Outra versão sugere que agricultores alpinos faziam panquecas grossas com ingredientes que sobravam e depois rasgavam-nas na frigideira para alimentar os trabalhadores rapidamente. Com o tempo, o prato subiu das cabanas de montanha para os palácios e, por fim, para os cafés das cidades.

Em que é que esta “panqueca mexida” austríaca difere do que conhece

Textura acima da forma perfeita

Os crepes ao estilo francês apostam na precisão: finos, redondos, lisos, dobrados com cuidado. O kaiserschmarrn vai noutra direção. A massa cozinha mais espessa, como se fosse uma única panqueca grande. A meio da cozedura, em vez de a deslizar com elegância para um prato, o cozinheiro ataca-a com uma espátula ou um garfo e parte-a em pedaços rudes.

Esses pedaços rasgados expõem mais superfície ao calor, o que significa mais caramelização, mais arestas e mais contraste entre o exterior estaladiço e o interior macio.

No kaiserschmarrn, a “viragem falhada” torna-se o objetivo: a sobremesa celebra os pedaços partidos em vez de os esconder.

Claras em castelo que funcionam como arma secreta

Há um detalhe técnico que faz toda a diferença: bater as claras em separado. Ao batê-las com uma pitada de sal até formarem picos suaves e depois envolvê-las delicadamente na massa, prende-se ar no interior. Esse ar expande-se na frigideira e dá uma textura muito mais fofa do que a maioria dos crepes.

A técnica faz lembrar o que pasteleiros usam em soufflés, bolos chiffon e algumas waffles. Para quem está habituado a panquecas densas, a primeira dentada num kaiserschmarrn bem feito pode parecer surpreendentemente leve - quase como uma omelete doce cruzada com pão-de-ló.

Dentro de uma receita clássica de kaiserschmarrn

As versões caseiras variam, mas a base de uma massa tradicional costuma ser parecida com esta:

  • 3 ovos, separados em gemas e claras
  • 150 g de farinha
  • 2 colheres de sopa de açúcar
  • 250 ml de leite
  • Uma pitada de sal para as claras
  • Manteiga para a frigideira

O método tem um ritmo claro. Primeiro, batem-se as claras com o sal até ficarem arejadas e firmes. Noutra taça, bate-se a farinha, o açúcar, as gemas e o leite até obter uma massa lisa. Depois entram as claras, envolvidas suavemente em várias adições para não desfazer a espuma.

Isto produz uma massa muito mais leve do que a das panquecas comuns. Verte-se numa frigideira untada com manteiga numa camada espessa. A frigideira mantém-se tapada alguns minutos para a massa crescer e firmar; depois, vira-se tudo como se fosse uma omelete gigante.

Em vez de terminar a panqueca intacta, o cozinheiro usa um garfo ou espátula e rasga deliberadamente a massa em pedaços irregulares na frigideira. Esses pedaços cozinham mais um pouco, absorvendo manteiga e dourando nas bordas antes de irem diretamente para o prato.

Coberturas que importam mais do que a apresentação

Embora o kaiserschmarrn simples já seja rico, as coberturas empurram-no para território de sobremesa. Em Viena, os pratos costumam chegar com uma camada generosa de açúcar em pó e uma compota de ameixa ou maçã ligeiramente adoçada ao lado. A fruta macia corta a riqueza da massa e da manteiga.

As versões modernas vão além da tradição. Cozinheiros caseiros e padeiros das redes sociais juntam à panqueca rasgada o que tiverem à mão:

  • Doce rápido de framboesa com sementes de chia
  • Mel líquido ou xarope de ácer
  • Cremes de avelã ou de chocolate
  • Manteiga de amendoim e banana às rodelas
  • Molho de caramelo e frutos secos tostados

O prato funciona quase como uma tela em branco: não é bonito no sentido clássico, mas está pronto para levar fruta, molho, especiarias ou chocolate.

Como os pedaços são pequenos e irregulares, seguram os molhos de forma diferente de um crepe plano. Algumas pontas ficam estaladiças enquanto os centros absorvem natas ou compota, dando a cada garfada um equilíbrio ligeiramente diferente.

Porque é que este crepe “partido” encaixa nas tendências atuais

O kaiserschmarrn chega numa altura em que os feeds das redes sociais preferem comida com aspeto real a pratos demasiado encenados. Conteúdos que mostram pratos imperfeitos e táteis tendem a gerar mais envolvimento do que pastelaria perfeitamente simétrica. Uma frigideira cheia de pedaços dourados e rasgados, polvilhados com açúcar, satisfaz essa procura de textura visível e espontaneidade.

A receita também acompanha uma mudança mais ampla para comida de conforto com herança. Junta nostalgia, uma história ligada a um lugar e uma técnica simples o suficiente para iniciantes. Para pais, pode ser um pequeno-almoço de fim de semana em que as crianças ajudam a rasgar. Para anfitriões, torna-se uma sobremesa para partilhar, servida no centro da mesa.

Das casas de café de Viena às mesas de brunch em casa

Na Áustria, o kaiserschmarrn ocupa um espaço flexível entre sobremesa, lanche da tarde e “combustível” de montanha. Esquiadores pedem-no em cabanas alpinas, trabalhadores de escritório escolhem-no com café às 16h, e famílias cozinham-no em domingos lentos. Essa versatilidade torna-o fácil de adaptar também a rotinas britânicas ou americanas.

Para fãs de brunch que já alternam entre panquecas, waffles e French toast, o kaiserschmarrn acrescenta uma opção sem exigir equipamento especial. Uma frigideira, uma taça e um batedor chegam. O prato tolera pequenos erros: se a viragem correr mal ou se os pedaços se rasgarem “fora de tempo”, o resultado continua a estar no espírito da receita.

Prato Textura Forma típica Forma de servir
Crepe francês Fino, flexível Redondo, plano Dobrado ou enrolado, individual
Panqueca americana Fofa, tipo bolo Redonda, empilhada Porção por pessoa
Kaiserschmarrn Arejado, rasgado, ligeiramente estaladiço nas bordas Pedaços irregulares Para partilhar num prato ou na frigideira ao centro

Como adaptar o kaiserschmarrn a cozinhas modernas

Para além da versão clássica, muitos têm ajustado a receita a necessidades alimentares e gostos pessoais. Alguns trocam parte da farinha de trigo por amêndoa moída ou espelta para um sabor mais “frutoso” e intenso. Outros reduzem o açúcar na massa e apostam no molho de fruta para adoçar, o que agrada a quem controla o consumo de açúcar.

Versões sem glúten usam farinha de trigo-sarraceno ou de arroz. As claras batidas continuam a dar estrutura, por isso a textura mantém-se relativamente leve. Quem evita lacticínios recorre a leite de aveia ou amêndoa e substitutos vegetais de manteiga, com resultados razoáveis - sobretudo quando combinados com coberturas de sabor forte, como frutos vermelhos ou citrinos.

Em casa, também se brinca com extras: passas embebidas em rum, raspa de limão envolvida na massa, ou canela misturada com açúcar para mais aroma. O segredo é não sobrecarregar a massa, o que pode pesar e reduzir a leveza criada pelas claras batidas.

O que o kaiserschmarrn diz sobre a nossa mudança de atitude em relação à comida “falhada”

Esta sobremesa desafia discretamente uma ansiedade comum na cozinha caseira: o medo da imperfeição. Muita gente evita crepes porque teme bordas rasgadas, cor irregular ou uma primeira tentativa caótica. O kaiserschmarrn transforma esse receio numa característica. O prato funciona precisamente porque se recusa a ficar numa peça lisa e inteira.

Essa mentalidade tem benefícios práticos. Iniciantes podem focar-se no sabor e na textura em vez da simetria. Crianças podem ajudar a desfiar a panqueca na frigideira e aprender que partir algo de propósito pode fazer parte de uma receita. Criadores de conteúdo ganham um prato que filma bem, com movimento visível e vapor, em vez de pratos estáticos.

O kaiserschmarrn dá aos cozinheiros caseiros uma permissão rara: é suposto rasgá-lo, não corrigi-lo.

Para quem gosta de massa de crepe mas raramente consegue o círculo perfeito do Instagram, este primo austríaco oferece uma alternativa que valoriza conforto, pratos para partilhar e, por vezes, algumas migalhas em cima da mesa. O método continua acessível, os ingredientes mantêm-se familiares e o resultado encaixa tanto em manhãs como em tardes preguiçosas ou incursões noturnas à cozinha com a mesma facilidade.

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