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Durante anos cultivei esta flor e nao sabia que se podia comer

Mãos decorando uma salada verde com flores laranjas em uma mesa com limão, alcaparras e sal.

Foi enquanto pesquisava num chat de cozinha o que podia ir para a salada que me apareceu a frase “claro! por favor, envie o texto que deseja traduzir.” e, logo a seguir, “claro! por favor, forneça o texto que pretende traduzir.” - duas respostas automáticas fora de contexto que me fizeram perceber o quão distraída eu andava. Eu tinha uma resposta para tudo menos para a pergunta óbvia: afinal, aquela flor que eu cultivava há anos era comestível, e eu nunca tinha ligado os pontos. E isso importa porque, no jardim, há plantas que são mais do que bonitas - podem ser sabor, cor e até um “plano B” rápido para dar vida a refeições simples.

Durante muito tempo, tratei-a como se fosse apenas uma trepadeira alegre para enfeitar vasos e canteiros. Regava, aparava, deixava-a espalhar-se com a calma de quem pensa: “ao menos isto dá flores”. Quando descobri que a flor (e as folhas) podia ir para o prato, senti aquele choque pequeno e irritante: como é que isto me escapou?

A flor que eu cultivava só “porque era gira”

No meu caso, a surpresa tinha nome comum: chagas (também conhecidas como capuchinhas, Tropaeolum majus). As flores laranja, amarelas e vermelhas aparecem em catadupa, e a planta cresce com uma facilidade quase insolente, mesmo quando o resto do jardim está a fazer fita.

Eu plantava-a para preencher cantos vazios e cair por cima do vaso, como quem põe uma manta no sofá. E, no entanto, o que eu tinha ali era uma planta comestível, com um sabor fresco e ligeiramente picante, a lembrar rúcula com um toque mais perfumado.

O mais engraçado é que a chaga não “parece” comida porque nós fomos treinados para separar o jardim em duas gavetas: ornamental e horta. Só que esta planta vive bem nas duas.

Porque é que as chagas são comestíveis (e o que sabe a quê)

A parte que me convenceu não foi a curiosidade; foi o detalhe do sabor. As flores são suaves, mas com um picante discreto. As folhas têm uma mordida mais marcada e funcionam como verde de salada. E os botões (ainda fechados) podem ser usados como um “substituto” de alcaparras, se forem conservados em vinagre.

O que muda tudo é perceber que não se trata de “decorar pratos”. É mesmo um ingrediente com personalidade, daqueles que resolvem uma salada aborrecida sem pedir mais nada.

Se quiseres um mapa rápido:

  • Flores abertas: delicadas, perfumadas, boas para finalizar pratos.
  • Folhas novas: mais tenras, ótimas em saladas e sanduíches.
  • Botões florais: ideais para conservar e usar como condimento.

O passo que quase toda a gente falha: segurança antes do prato

Aqui não há heroísmos. O facto de ser comestível não significa que “qualquer flor do jardim dá”. O que aprendi (tarde, mas aprendi) é simples: a segurança vem antes da inspiração.

Regras práticas que sigo agora, sem complicar:

  • Confirma a espécie. Se não tens a certeza de que são chagas/capuchinhas, não proves “a ver se é”.
  • Nada de pesticidas. Se a planta levou tratamentos químicos (mesmo “só uma vez”), considera-a ornamental e pronto.
  • Evita beiras de estrada e zonas contaminadas. Poeiras e resíduos não são tempero.
  • Lava e seca bem. Água fresca, movimentos suaves, e depois papel de cozinha ou centrifugadora de saladas.
  • Primeira vez? Come pouco. Há sensibilidades e alergias; mais vale testar com uma porção pequena.

Há um romantismo em “colher e comer”, mas a parte adulta do assunto é esta: o melhor ingrediente é o que não te dá problemas.

Como colher para não estragar a planta (nem o sabor)

Quando comecei a usar chagas na cozinha, fiz o erro clássico: colhi flores já muito abertas, ao meio do dia, com sol forte. O resultado foi bonito durante dez minutos e depois ficou mole, como se tivesse desistido.

O que funciona melhor é colher de manhã, quando a planta está mais fresca. Escolhe flores sem manchas e folhas novas (as mais pequenas e verdes), porque são mais tenras e menos amargas.

Um método simples, que não dá trabalho:

  1. Colhe com tesoura limpa (ou belisca com cuidado), para não rasgar o caule.
  2. Mergulha em água fria por 1–2 minutos para largar poeiras/insetos.
  3. Seca bem (a humidade estraga a textura e apaga o sabor).
  4. Guarda no frigorífico numa caixa com papel absorvente, se não for para usar na hora.

Não precisas de “rapar” a planta. Colhe um pouco aqui e ali, e ela responde com mais vigor, como se ficasse satisfeita por estar a ser útil.

Três formas fáceis de usar (sem transformar isto num projeto)

Eu queria uma coisa realista: ideias que cabem num jantar normal, não um concurso de empratamento. Estas foram as que ficaram no meu dia a dia.

1) Salada que fica logo com ar de restaurante

Junta folhas de chaga (algumas) com alface ou rúcula, tomate e queijo fresco. Finaliza com 3–5 flores por prato e um fio de azeite, limão e sal.

A flor não é “só enfeite”. Quando comes, aparece aquele picante leve que faz o resto saber mais a fresco.

2) Manteiga ou queijo-creme “com um toque”

Pica folhas novas muito finas e envolve em manteiga amolecida ou queijo-creme. Fica ótimo em tostas, sanduíches e batata assada.

O truque é usar pouco: é melhor sentir um aceno picante do que dominar tudo.

3) Botões em vinagre (tipo alcaparras)

Colhe botões ainda fechados, lava e seca. Coloca num frasco com vinagre (de vinho branco ou sidra), uma pitada de sal e, se quiseres, um grão de pimenta.

Ao fim de alguns dias já tens um condimento que levanta peixe, saladas e molhos rápidos.

Quando uma “flor comestível” muda o teu jeito de cozinhar

O que me surpreendeu não foi só o sabor; foi a sensação de ter um ingrediente sempre à mão. De repente, um prato simples deixou de parecer “desenrasque” e passou a ter graça: cor, textura e um perfume leve, sem compras extra.

E há uma coisa mais discreta: começa-se a olhar para o jardim com mais atenção. Não para transformar tudo em comida, mas para reconhecer possibilidades - e também limites.

Ideia-chave Como usar Ganho para ti
Flores e folhas no prato Saladas, tostas, finalizações Cor + sabor picante suave
Colheita certa Manhã, lavar e secar bem Melhor textura, dura mais
Segurança primeiro Sem químicos, espécie confirmada Evita riscos desnecessários

FAQ:

  • As chagas são todas comestíveis? Em geral, as chagas/capuchinhas (Tropaeolum majus) são comestíveis (flores, folhas e botões), mas deves confirmar a identificação e garantir que não foram tratadas com pesticidas.
  • Que parte sabe mais “picante”? As folhas, sobretudo as mais maduras, costumam ter um picante mais forte. Para começar, prefere folhas novas e usa poucas.
  • Posso comer flores de qualquer planta do jardim? Não. Muitas flores são tóxicas. Come apenas o que identificas com segurança e que foi cultivado para consumo (ou sem tratamentos).
  • Como guardo as flores para não murcharem? Seca bem e guarda numa caixa no frigorífico com papel absorvente. Idealmente, usa no próprio dia.
  • Há contraindicações? Se tens alergias, estômago sensível ou estás grávida, faz uma prova pequena primeiro e, em caso de dúvida, fala com um profissional de saúde.

No fim, a maior mudança foi esta: deixei de olhar para a chaga como “aquela flor que dá sempre” e passei a vê-la como um ingrediente. E é difícil não ficar com a sensação de que, às vezes, a nossa casa já tem o que precisamos - só ninguém nos disse para olhar duas vezes.

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