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Especialistas alertam que beber muito chá no inverno pode disfarçar sinais de desidratação nos idosos.

Pessoa a servir chá quente numa chávena, com comprimidos e laranjas numa mesa de cozinha iluminada pelo sol.

Fora, o vento corta e os passeios brilham com geada.

Dentro, numa pequena casa em banda em Birmingham, Margaret, 78 anos, envolve as mãos à volta da quinta caneca de chá do dia. O aquecimento está baixo para poupar dinheiro, o casaco de malha escorregou de um ombro, e o vapor da chaleira sabe a manta de conforto. Ela insiste que está a “beber imenso”, abanando a caneca com um pequeno sorriso orgulhoso.

A filha, que veio passar o fim de semana, repara noutras coisas. O copo de água intacto junto ao lava-loiça. A urina mais escura do que o habitual na casa de banho. A ligeira confusão quando Margaret volta a contar uma história que já tinha contado dez minutos antes. Tudo parece inverno, parece envelhecer normalmente, parece apenas cansaço.

No entanto, algo mais silencioso está a acontecer no corpo dela, escondido por trás do som familiar das chávenas a tilintar.

Quando o calor do inverno esconde uma verdade seca

Entre em qualquer casa britânica em janeiro e é provável que ouça a mesma banda sonora: chaleira a ferver, colheres a bater, um “queres um chazinho?” a vir da cozinha. Entre pessoas mais velhas, o chá não é apenas uma bebida: é um ritual, uma cola social, quase uma âncora diária. Nos dias frios, esse ritual intensifica-se. Três chávenas tornam-se seis. Seis, por vezes, tornam-se oito.

À superfície, parece o paraíso da hidratação. Muito líquido, goles frequentes, um conforto quente que anima. Muitos seniores acreditam genuinamente que “não se pode beber chá a mais”. Mas especialistas em hidratação que trabalham com lares dizem, baixinho, o contrário. Estão a ver um aumento da desidratação no inverno que se esconde por trás de infusões intermináveis.

O paradoxo é inquietante: quem acha que está a beber o suficiente é muitas vezes quem, devagarinho, se está a secar por dentro.

Num centro comunitário em Leeds, a equipa manteve uma contagem simples no inverno passado. Contaram quantas bebidas quentes as pessoas tomavam no almoço semanal do clube de seniores e quantas águas simples ou infusões sem cafeína saíam do jarro ao lado. Os resultados foram claros. Em média, cada pessoa bebia cinco a sete canecas de chá preto. O jarro grande de água? Quase intocado. Alguns dias, voltava para a cozinha quase cheio.

Mais tarde, quando o centro se associou a uma enfermeira de hidratação do NHS local, começaram a rastrear os participantes. Foram encontrados marcadores de desidratação ligeira em cerca de um em cada três frequentadores nas semanas mais frias. Eram pessoas que juravam que estavam “sempre a beber”. Pessoas cujas mãos pareciam nunca estar sem uma caneca. Esse choque entre perceção e realidade ficou na memória da equipa.

Um voluntário resumiu assim: “Achávamos que a chaleira era a nossa rede de segurança. Não era.”

Há uma explicação prática. O chá conta para a ingestão de líquidos, e o velho mito de que “não hidrata nada” não é sustentado pela evidência. Mas, para os seniores, a história é mais nuanceada. A cafeína tem um efeito diurético ligeiro em algumas pessoas, levando o corpo a perder um pouco mais de líquido. Mais subtilmente, o chá pode atenuar os sinais naturais de sede. Quando a boca se sente quente e húmida, o cérebro muitas vezes deixa de enviar aquele alerta discreto de “tenho sede”, mesmo que a água total do corpo continue baixa.

O frio acrescenta mais uma camada. Não nos sentimos tão transpirados. Não vemos a perda. O corpo desvia sangue da pele para o centro para conservar calor, enganando o cérebro e fazendo-o acreditar que o “depósito” está mais cheio do que está. Assim, uma pessoa mais velha a beber caneca após caneca sente-se “bem abastecida”, enquanto as células estão discretamente subabastecidas. É assim que o inverno e a bebida preferida de uma nação podem juntar-se para esconder um problema à vista de todos.

Como manter a chaleira - e o corpo - do seu lado

Especialistas em hidratação que trabalham com seniores raramente dizem “pare de beber chá”. Sabem que isso não vai acontecer e, francamente, não é preciso. O que sugerem, em vez disso, é um pequeno ritmo diário que muda discretamente o equilíbrio. Comece e termine o dia com água, não com chá. Um copo na mesa de cabeceira para a manhã. Um junto à televisão para a noite. Sempre no mesmo sítio, todos os dias, até passar a fazer parte do cenário.

Entre essas duas âncoras, falam de uma regra simples: por cada duas canecas de chá, encaixe uma bebida sem cafeína. Pode ser água morna com uma rodela de limão, uma infusão de ervas suave, ou até um sumo diluído (tipo “squash”) muito aguado. Sem drama, sem sermão, apenas uma substituição suave. Trata-se de acrescentar, não de retirar. Hidratação, sem ameaçar o conforto daquela caneca familiar.

Em termos práticos, ajuda levar as alternativas para onde a vida realmente acontece. Um pequeno termo de infusão de ervas morna ao lado da poltrona preferida. Um jarro de água na mesa antes de começar o concurso da tarde. Hidratação que se adapta aos hábitos, e não o contrário.

Ao ouvir famílias de pessoas mais velhas, surge a mesma tensão repetidamente. Estão preocupadas com desidratação e quedas, mas não querem policiar cada gole nem discutir por algo tão pequeno como um chazinho. Numa terça-feira chuvosa de fevereiro, parece mais fácil deixar passar o chá extra do que insistir em “só mais um copo de água”. Sejamos honestos: ninguém faz isso todos os dias.

Especialistas em hidratação sugerem afastar-se das reprimendas e aproximar-se da curiosidade. Pergunte quando foi a última vez que a sua mãe ou o seu avô realmente sentiu sede. Pergunte do que gosta que não seja chá, e porquê. Uns dizem que a água “não sabe a nada”, outros não querem ir à casa de banho mais vezes durante a noite, outros simplesmente nunca criaram o hábito. Cada resposta abre uma pequena porta. É aí que vivem os pequenos ajustes.

Do lado profissional, enfermeiros de lares estão agora atentos a sinais discretos: uma quebra súbita do apetite, lábios mais secos, um ligeiro desequilíbrio que não existia na semana anterior. Sabem que estes sinais surgem frequentemente antes dos mais óbvios, como tonturas ou confusão. E sabem que o inverno é quando esses sinais tendem a multiplicar-se.

“Não queremos transformar o chá no inimigo”, diz Ruth Mason, responsável de hidratação num grupo de lares em Londres. “O chá traz conforto, memórias, conversa. Nós só tentamos garantir que não é o único líquido da história. Pense nele como um apoio, não como o espetáculo inteiro.”

A abordagem dela é quase desarmantemente simples. Treina equipas e famílias para fazerem três pequenas verificações ao longo do dia: a cor da urina, quando foi a última vez que se terminou uma bebida sem cafeína e se a pessoa tem estado invulgarmente sonolenta ou baralhada. Sem tabelas no frigorífico, sem aplicações complicadas.

  • Incentive um copo de água ao acordar, antes do primeiro chá.
  • Ofereça bebidas quentes sem cafeína juntamente com os chás da tarde e da noite.
  • Esteja atento a urina mais escura, dores de cabeça ou cansaço súbito como sinais discretos de alerta.

A nível humano, há ainda outra ferramenta, mais suave: hábitos partilhados. Sentar-se com um familiar mais velho e beber a mesma infusão de ervas, ao mesmo tempo, transforma “bebe qualquer coisa” em “vamos beber a nossa bebida”. Essa pequena mudança para fazerem em conjunto funciona muitas vezes melhor do que qualquer sermão.

As verificações silenciosas que melhoram o inverno

Quando começa a reparar em como o chá domina os dias de inverno, é difícil deixar de ver. As canecas empilhadas ao lado do lava-loiça. As idas constantes à cozinha, não por sede, mas por hábito ou aborrecimento. O copo de água intocado a aquecer lentamente na mesa. Numa tarde fria, a chaleira torna-se o centro social da casa. A hidratação reduz-se a um sabor familiar, uma cor, um ritual.

Ninguém está a sugerir arrancar esse ritual. Numa noite solitária de janeiro, o conforto simples de segurar uma caneca quente pode ser enorme. O que os especialistas em hidratação de seniores pedem, com gentileza, é que alarguemos o quadro. Que introduzamos pequenas mudanças, quase invisíveis, que protegem a clareza mental, o equilíbrio e a energia. Que nos lembremos: pensar com clareza e caminhar com firmeza é tão precioso como aquele chá perfeito.

O corpo raramente “grita” no início quando está a secar. Sussurra. Um pouco mais de fadiga aqui. Um pouco de confusão ali. Uma dor de cabeça atribuída “ao tempo”. Quando se sabe que esses sussurros são muitas vezes mais fortes no inverno e frequentemente escondidos por camadas de chá, muda a forma como se olha para o dia de um familiar mais velho. Ou para o seu, se discretamente entrou no clube das muitas canecas.

Todos conhecemos aquele momento em que percebemos que alguém de quem gostamos é mais frágil do que deixa transparecer. A hidratação é um desses pontos frágeis - surpreendentemente fácil de falhar, deliciosamente fácil de ajustar. Um copo de água ao lado das palavras cruzadas. Uma infusão de hortelã partilhada depois do assado de domingo. Uma conversa suave sobre porque é que a terceira caneca de chá forte às 22h talvez não seja a melhor aliada.

No fim, a história não é “o chá é mau”. É “o chá não é a história toda”. O inverno empurra-nos sempre para o calor, para o conforto, para o assobio familiar da chaleira. O desafio silencioso é deixar esse conforto ficar, enquanto se cria espaço para a água clara e simples que o corpo continua a pedir - mesmo quando a boca já está cheia de sabor e vapor.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
O chá pode mascarar a desidratação Bebidas quentes frequentes criam sensação de conforto e de “estar hidratado”, enquanto os sinais de sede ficam atenuados. Evite ficar falsamente descansado por ver que você ou um familiar “está sempre a tomar um chazinho”.
Verificações simples no inverno Monitorize a cor da urina, os níveis de energia e quando foi a última bebida sem cafeína ao longo do dia. Detete a desidratação cedo, antes de levar a confusão, quedas ou idas ao hospital.
Pequenos ajustes de hábitos Acrescente água ao acordar, alterne chá com bebidas sem cafeína, torne a hidratação uma atividade partilhada. Proteja a saúde sem abdicar do conforto emocional do chá.

FAQ:

  • O chá desidrata mesmo os seniores? O chá preto continua a contribuir para a ingestão de líquidos, mas em pessoas mais velhas a dependência elevada de bebidas com cafeína pode aumentar ligeiramente a perda de líquidos e, sobretudo, suprimir a sede, permitindo que a desidratação se acumule discretamente no inverno.
  • Quanto deve beber uma pessoa mais velha na estação fria? A maioria dos especialistas sugere cerca de 1,5 a 2 litros de líquidos por dia, a menos que um médico tenha dado orientações diferentes; isso inclui chá, mas ter pelo menos metade sob a forma de água ou bebidas sem cafeína é um equilíbrio mais seguro.
  • As infusões de ervas são melhores do que o chá normal para hidratação? As infusões de ervas sem cafeína são, em geral, mais suaves para os rins e não têm efeito diurético, pelo que são uma forma útil de acrescentar bebidas quentes sem depender apenas do chá preto.
  • Quais são sinais precoces de desidratação no inverno em seniores? Confusão ligeira, urina mais escura, boca seca, dores de cabeça, obstipação e cansaço inesperado podem surgir antes de sintomas mais marcados como tonturas ou desmaios.
  • Como podem as famílias ajudar sem andar sempre a insistir? Ofereçam bebidas partilhadas, coloquem água ou infusões onde a pessoa se senta naturalmente, associem bebidas a rotinas diárias e conversem abertamente sobre o que ela gosta mesmo de beber, em vez de dar ordens.

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