Saltar para o conteúdo

O item do kit de emergência automóvel que salva mais vidas do que o estojo de primeiros socorros.

Homem com colete refletor parado na berma da estrada ao lado de um carro avariado e triângulo de sinalização.

Um estalido suave, uma oscilação, e o meu carro arrastou-se até à berma dura pouco depois do anoitecer. O ar sabia a alcatrão molhado e pó de travões. Os camiões suspiravam ao passar, como animais pesados, e o seu sopro empurrava o meu pequeno hatchback. Liguei os quatro piscas e encontrei o meu kit de emergência debaixo dos carrinhos e sacos de compras, tirando aquilo que eu achava que seria o herói: uma bolsa de primeiros socorros com pensos rápidos e ligaduras triangulares. Era reconfortante na mão. E também completamente inútil enquanto eu ali estava, invisível.

O que me salvou nessa noite não estava na bolsinha vermelha arrumada. Era a coisa mais barulhenta, mais feia e mais importante que possuo. E eu costumava achar que era opcional.

A noite em que aprendi o que realmente te salva

Continuo a rever, vezes sem conta, o aspeto dos carros no meu retrovisor lateral: apenas riscos de faróis brancos refletidos na estrada húmida. Pensei em sair, depois fiquei onde estava porque algo parecia errado. A berma dura é um limbo onde cada segundo é demasiado longo. Quando um condutor encostou atrás de mim e uma figura desceu da sua carrinha, vi um clarão que parecia eletricidade e casca de limão. Trazia um colete refletor, daqueles que praticamente gritam.

Ele não tocou no meu carro de imediato. Caminhou até à faixa de relva, fez-me sinal para ir e gritou por cima do ruído para eu manter o casaco bem apertado, de modo a parecer maior. A fita retrorrefletora do colete apanhava cada batida de luz do trânsito que passava. Não me lembro da cara dele. Lembro-me de me sentir vista. E sentir-se visto, afinal, é o que te mantém vivo à beira da estrada.

O herói pouco glamoroso do teu kit: um colete refletor

O item que salva mais vidas do que os materiais de primeiros socorros não é dramático. Não vem com uma cruz vermelha nem com instruções. É o colete refletor que podes vestir por cima de um casaco em três segundos, o que custa menos do que uma refeição para levar e fica péssimo em fotografias. Os primeiros socorros podem ajudar-te depois de algo correr mal. A visibilidade intensa pode impedir que o pior aconteça logo à partida.

Avarias e pequenos toques raramente são fatais por si só. É o segundo impacto que faz estragos - aquele que não vês chegar porque um condutor não identificou a tua silhueta a tempo. O colete muda isso. Muda o que os outros veem: de um contorno baixo e escuro ao lado de um rail, para um ser humano cosido de luz. Essa diferença compra-te espaço, e segundos, e calma.

A física simples de ser visto

Os faróis abrem túneis na escuridão. As faixas retrorrefletoras devolvem essa luz diretamente à origem, como um aperto de mão secreto entre o teu colete e cada condutor que se aproxima. Com chuva, quando as superfícies ficam brilhantes e os contornos se desfocam, o colete continua a ser a coisa mais nítida na estrada. Ao amanhecer, quando a luz cinzenta engana os olhos, destaca-se. Mesmo de dia, numa estrada nacional movimentada, o amarelo ou laranja fluorescente dá ao cérebro um sinal mais rápido do que qualquer triângulo de sinalização alguma vez dará.

Porque é que primeiros socorros não são a primeira resposta na berma

Os kits de primeiros socorros importam. Eu tenho um, vou repondo o que falta, e já usei o meu para pequenas emergências com crianças e cães e bolhas perdidas. Mas à beira da estrada é preciso uma ordem diferente de pensamento. Numa via em circulação, a tua maior ameaça não é um corte ou uma nódoa negra. É a velocidade. É a distração. É o carro que deriva mais um metro do que o condutor esperava enquanto escolhe uma playlist.

Os paramédicos dir-te-ão que as colisões secundárias são as que partem o coração. Encostaste em segurança, estás a fazer o correto, e depois alguém não te vê. Um colete transforma o teu corpo inteiro num sinal. Compra-te atenção num lugar onde a atenção é rara e volúvel. Se os primeiros socorros são a caixa de ferramentas, o colete refletor é o capacete e os andaimes.

O teste de realidade no Reino Unido: bermas duras, autoestradas “inteligentes” e o Highway Code

Na Grã-Bretanha, as regras da estrada não são apenas sugestões educadas. Nas autoestradas, não colocas um triângulo de sinalização porque caminhar na faixa de rodagem te tornaria parte do perigo. Ligas os quatro piscas, orientas as rodas para a esquerda e tiras-te a ti e aos passageiros pelo lado do passageiro, se for seguro, e depois para trás do separador. É aí que o colete mostra o seu valor. Deixas de ser uma figura sombria num casaco preto. Passas a ser uma afirmação a piscar.

As autoestradas “inteligentes” acrescentam uma camada de inquietação. Uma via em circulação pode tornar-se refúgio e voltar atrás. Os sinais mudam. As câmaras observam. No meio de tudo isso, uma coisa mantém-se simples: ser fácil de ver dá tempo a toda a gente para reagir. Ajuda o condutor que acabou de olhar para o espelho. Ajuda a patrulha que vai a caminho. Ajuda a pessoa que quer ajudar, mas precisa de te encontrar na meia-luz de uma chuvinha miúda.

Em estradas normais, podes usar um triângulo de sinalização se for seguro colocá-lo, mas a distância é difícil de avaliar e o terreno prega partidas. Um colete podes usar de imediato. Engole o orgulho e veste-o. Não estás a fazer um casting para uma obra. Estás a dizer ao mundo, com clareza fluorescente: “Estou aqui.”

Onde o guardas importa mais do que o ter

Muitos de nós têm um colete refletor. Vive com o raspador de gelo, os elásticos, as cadeiras de praia, a bola, e outros artefactos de verões passados. Um colete escondido debaixo do tapete da bagageira é uma boa ideia. Não é um salva-vidas. Quando realmente precisares dele, não vais andar a remexer.

Guarda-o no porta-luvas, não na bagageira. Ou pendura-o no encosto de cabeça, dobrado, pronto a agarrar num único gesto. Se avarias numa via em circulação e já há fumo a sair do capô, a última coisa que queres é uma caça ao tesouro. A diferença entre “consigo alcançá-lo do lugar do condutor” e “está por baixo das rodas do carrinho de bebé” mede-se em batimentos cardíacos.

Se partilhas carros, leva um colete dobrável que se arruma no próprio bolso. Se pedes emprestado ou alugas, trata o colete como tratas o telemóvel e as chaves. O hábito vence as boas intenções, sempre. Não podes vestir o que não consegues alcançar.

Pequenos rituais que mudam desfechos

Todos já tivemos aquele momento em que a luz do combustível acende e arriscamos mais uns oito quilómetros. A vida com carro é desarrumada e humana. É por isso que os rituais pequenos são tão poderosos. Planeia para a versão de ti que está cansada depois do trabalho, está a chover e a bateria do telemóvel está nos 8%. Essa versão precisa de um colete que praticamente se atire ao teu peito.

Sejamos honestos: ninguém verifica o kit de emergência todos os dias. Por isso, junta-o a algo que fazes sem pensar. Quando atestas o líquido do limpa-vidros, confirma se o colete está lá. Quando trocas uma escova do limpa para-brisas, verifica se o tecido não está rasgado e se as faixas refletoras ainda brilham. Uma verificação de sessenta segundos uma vez por mês impede que o teu “eu do futuro” vire uma notícia.

Histórias à beira da estrada

As patrulhas dir-te-ão as mesmas três verdades, contadas com sotaques diferentes em diferentes estações de serviço. As pessoas saem vestidas de preto e desaparecem. As pessoas subestimam a rapidez com que a noite achata a perceção de profundidade. As pessoas param logo a seguir a uma curva, e a visibilidade desaparece num instante. As chamadas que os assombram não são sobre sangue, mas sobre o carro que simplesmente não viu.

Um taxista que conheço em Manchester guarda dois coletes no bolso da porta. Ao longo dos anos, ofereceu três a desconhecidos encalhados. Jura pelo “efeito farol” numa circular molhada às duas da manhã. Não é magia. É boas maneiras para a física. Faz-te a coisa mais brilhante e os condutores comportam-se de forma diferente à tua volta.

Uma vez vi uma família na A30 sair com calma e em silêncio: o pai a conduzir as crianças por cima do separador, com um colete refletor pousado em cada uma delas como capas. O mais novo apanhou uma lata amassada e amarrotou-a enquanto esperavam, o som agudo de folha metálica por baixo do sibilo dos carros a passar. Pareciam uma pequena equipa. A autoestrada via-os como um plano, não como uma surpresa.

O que comprar: um colete de dez libras que pode salvar-te a vida

Não precisas de pensar demasiado nisto. Compra um colete de alta visibilidade que cumpra a norma EN ISO 20471. Escolhe amarelo ou laranja para se destacar no tempo cinzento do Reino Unido. Compra um que sirva por cima do teu casaco mais grosso sem repuxar. Se corres ou pedalas, já sabes o que é “brilhante o suficiente”. As mesmas regras aplicam-se quando estás ao lado de um carro avariado com o coração na garganta.

Ser visto ou ser invisível. É essa a escolha à noite, à chuva, ou numa estrada rápida. Um colete é a tecnologia de segurança mais barata que alguma vez terás. E, já agora, acrescenta uma lanterna de cabeça ou um pequeno sinalizador intermitente. A luz é linguagem. Estás a ensinar os outros condutores a ler-te.

Lista rápida para o porta-luvas

  • Colete refletor compatível com EN ISO 20471 que sirva por cima de um casaco de inverno
  • Lanterna de cabeça LED compacta ou sinalizador intermitente com pilhas novas
  • Carregador de telemóvel ou power bank para pedir ajuda
  • Cartão dobrado com contactos da assistência em viagem e detalhes do seguro
  • Luvas finas para mexeres num pneu sem perder calor

Como usar quando o cérebro está em alvoroço

No momento em que o carro começa a portar-se mal, sinaliza e encosta num local seguro, o mais à esquerda que conseguires. Quatro piscas ligados. Travão de mão. Agarra no colete antes de abrires a porta. Se estiveres numa autoestrada, deixa o triângulo na bagageira. O teu trabalho é visibilidade, não heroísmos.

Veste o colete dentro do carro, se conseguires. Sai pelo lado do passageiro e vai para trás de um separador. Tira as crianças pela mão, guarda os telemóveis por um minuto, e sobe para a berma/valeta. Liga para pedir ajuda quando estiveres fora da faixa de rodagem. Espera num local onde possas ver o trânsito, não onde o trânsito te possa encontrar. O colete não é um escudo. É um foco que te dá as melhores probabilidades de segurança.

A coisa que ninguém admite sobre o medo

Ficar ao lado de um carro silencioso é embaraçoso e assustador, e por vezes leva-nos a fazer disparates. Andamos às voltas. Pairamos. Abrimos o capô e ficamos a olhar como se fosse um puzzle que dá para resolver à força de vontade. O medo torna-te pequeno e nervoso. O colete faz o contrário. Torna-te maior aos olhos que importam.

Nessa noite na berma, percebi que a coisa mais salvadora no meu carro não era o kit vermelhinho com pensos e toalhetes de soro fisiológico, mas um colete desalinhado que funcionava como um foguete que se veste.

Quando o reboque finalmente chegou, com luzes âmbar a cortar a chuvinha, senti-me ridículo por alguma vez ter pensado que a bolsa de primeiros socorros bastava. O condutor fez um aceno que dizia que eu tinha feito o básico bem. Disse-me que me tinha avistado de longe porque eu “saltava à vista”. Decidi ali mesmo que, se alguma vez oferecesse a um amigo um presente de carro novo, não seria um ambientador pendurado. Seria o colete feio e bonito.

Faz dele a tua promessa silenciosa

Planeamos aniversários e orçamentos e férias, mas a maioria de nós não planeia aqueles quinze minutos na berma de uma estrada secundária molhada. É justo. A vida não é uma avaliação de risco. Ainda assim, há pequenas promessas que podes fazer a ti próprio e que não sabem a ansiedade. Uma é simples: o colete vive à frente, não enterrado debaixo de tralha de praia e de pensamentos desejosos.

Em autoestradas, fica no carro se não conseguires chegar com segurança para trás de um separador e mantém o colete ao alcance. Em estradas mais lentas, veste-o assim que paras. Quando emprestas o carro, mostra onde ele fica. Quando limpas pacotes de batatas fritas e recibos de estacionamento, confirma o colete. Sem discursos. Apenas um hábito que te impede de te tornares uma história difícil de ver no fundo do feed de notícias.

Há um cheiro que se nota logo após a chuva: um aroma limpo, mineral, que sobe do lancil. Lembro-me dele sempre que dobro o colete e o volto a meter no porta-luvas, um pequeno ritual antes de ligar o motor. Penso no homem da carrinha e na forma como a fita devolvia o brilho ao trânsito. A segurança raramente é glamorosa. Muitas vezes é fluorescente. E está à tua espera no porta-luvas, pronta para te fazer parecer alto, ruidoso e, desafiantemente, vivo.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário