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O mito sobre condução no inverno que, na verdade, aumenta o risco de derrapagem em estradas geladas.

Homem a conduzir carro numa estrada coberta de neve, com árvore ao fundo e termocup na consola.

The petrol station forecourt was a mess of papa, faróis e respirações a transformarem-se em pequenas nuvens.

Uma fina camada de gelo brilhava na estrada como se alguém tivesse embrulhado a cidade em película aderente. As pessoas raspavam os para-brisas com cartões de crédito, praguejavam contra portas congeladas e entravam nos carros com aquela mesma mistura invernal de stress e bravura.

Vi um condutor mais velho sair primeiro, avançando devagar para a estrada principal. As rodas patinaram, a traseira do carro sacudiu, e ele fez aquilo que milhões de condutores acham ser a reação certa no inverno: carregou a fundo no acelerador para “passar à força” pelo gelo. O carro derrapou de lado antes de a eletrónica o endireitar.

Dois carros atrás dele, uma mulher mais nova fez exatamente o mesmo. A mesma escorregadela. O mesmo instinto. O mesmo mito.

O mito da condução no inverno de que “um bom toque de acelerador dá mais aderência” ainda está vivo. E, silenciosamente, está a tornar as estradas geladas muito mais perigosas do que precisam de ser.

O mito que o faz derrapar mais cedo

Há uma crença teimosa de que, quando a estrada está gelada, é preciso “manter a velocidade” ou “dar-lhe gás” para o carro não ficar preso. Em algumas famílias, isto passa quase como uma receita. O avô fazia, o pai fazia, por isso você também faz. Parece audaz, confiante, quase heroico.

Em asfalto seco, essa ligeira agressividade pode passar despercebida. Em gelo negro, é como caminhar depressa para um chão de mármore polido com sapatos molhados. O pneu quase não tem a que se agarrar. Quanto mais bruscamente acelera, mais arranca a pouca aderência que ainda resta.

Esta é a armadilha silenciosa da condução no inverno: a ideia de que mais acelerador é igual a mais controlo.

Olhe para qualquer fila numa autoestrada numa manhã gelada e vai vê-lo. Um carro arranca de um entroncamento, o condutor dá um empurrão forte no pedal, as rodas da frente patinam e guincham, e o veículo mal se mexe. Mesmo visto de trás, lê-se a frustração na linguagem corporal: um segundo golpe de acelerador, rodas a patinar mais depressa, o carro a derivar de lado como se estivesse sobre rolamentos.

Os investigadores de acidentes conhecem bem este padrão. Em dias de geada, encontram marcas de derrapagem que não parecem dramáticas no comprimento, mas começam exatamente onde os condutores esmagaram o acelerador ao sair de uma rotunda ou ao tentar entrar no trânsito. Inquéritos de várias seguradoras europeias mostram que as participações no inverno disparam no primeiro dia de gelo, muitas vezes ligadas a perdas de controlo a baixa velocidade em cruzamentos e em subidas.

O que as pessoas recordam é: “O carro simplesmente escorregou sem motivo.” A verdade costuma ser menos misteriosa: o comando errado no pior momento possível.

Mecanicamente, o mito desfaz-se assim que pensa no que um pneu está realmente a fazer. Um pneu só consegue gerir uma quantidade limitada de “trabalho” antes de perder tração. Os engenheiros chamam-lhe o “círculo de fricção”. Se gastar demasiada aderência a acelerar, não sobra suficiente para virar. Se exigir muito a travar, não fica nada para curvar. No gelo, esse círculo encolhe dramaticamente.

Por isso, quando enterra o pé para “arrancar” numa subida congelada, está a pedir aos pneus uma fatia enorme de um orçamento de aderência minúsculo - num instante. Eles respondem a patinar. E, quando patinam, a zona de contacto passa a “flutuar” sobre um filme microscópico de água derretida, como um hovercraft. A aderência cai ainda mais. Sente-se “preso”, carrega mais. Um círculo vicioso.

O mito sobrevive porque, às vezes, o carro dá mesmo um solavanco para a frente, o que parece prova. Na realidade, é sorte aleatória: um pedaço de piso mais rugoso, uma pedrinha, um pouco de gravilha. O método não estava a funcionar. A estrada é que o safou.

O truque lento e aborrecido que realmente funciona

A verdadeira competência no inverno é quase desiludentemente simples: suavidade em tudo. Acelerador suave, direção suave, travagem suave. No gelo, o seu melhor amigo é uma suavidade tão delicada que, ao volante, até parece um pouco exagerada. Pense “andar sobre cascas de ovos”, não “atacar a subida”.

Ao arrancar, use o mínimo de rotações possível. Deixe a embraiagem pegar devagar ou, num automático, alivie o travão e deixe o carro rastejar sozinho antes de acrescentar o mais pequeno toque de acelerador. Se as rodas patinarem, alivie imediatamente e tente de novo, ainda mais suavemente. Numa subida, comece a mover-se enquanto a superfície ainda está o mais plana possível, para ganhar um pouco de embalo antes da parte mais inclinada.

Parece dolorosamente lento. É exatamente por isso que funciona.

A maioria de nós sobrestima quanta aderência tem e subestima quão pouca precisa. Movimentos minúsculos no pedal fazem uma grande diferença no gelo. Mais dois milímetros de acelerador podem ser a diferença entre avançar e “acender” os pneus. O mesmo vale para a direção. Virar muito de uma vez só sobrecarrega os pneus da frente e empurra o carro em frente.

Num dia calmo, experimente isto num estacionamento seguro e vazio quando houver geada: arranque como se estivesse a transportar um copo cheio de café quente no tablier. Sem movimentos bruscos, sem solavancos. Travar deve parecer uma expiração longa. Se estiver a usar ABS e ele começar a vibrar sob o pé, é o seu carro a gritar: “Pediste demasiado, depressa demais.”

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Temos pressa, estamos atrasados, as crianças gritam atrás, o telemóvel vibra. É exatamente aí que o mito volta. “Vou só dar mais um bocadinho.” É nesse bocadinho a mais que se perde o controlo.

“Os condutores mais seguros no inverno não são os mais corajosos nem os mais habilidosos”, explica um instrutor veterano da Noruega. “São os mais preguiçosos com os pés e as mãos. Fazem menos, mais devagar, e deixam o carro e os pneus fazerem o trabalho.”

Pense em algumas regras simples, quase como notas escritas para si próprio na pala do sol:

  • Devagar a entrar, ainda mais devagar a sair: Chegue a cada cruzamento ou curva a passo de andar.
  • Uma coisa de cada vez: Ou trava, ou vira, ou acelera - não as três ao mesmo tempo.
  • Pés suaves, mãos calmas: Trate cada comando como se tivesse um bebé a dormir em cima dele.

Isto não são truques de corrida. São pequenos hábitos repetíveis que anulam discretamente os mitos do inverno com que crescemos.

Repensar o que significa “ser um bom condutor no inverno”

Gostamos de imaginar o bom condutor de inverno como aquele que “sabe controlar uma derrapagem”, que mete contra-braço como num vídeo de rali. A realidade é menos cinematográfica. Os melhores condutores de inverno constroem toda a viagem de forma a que uma derrapagem simplesmente nunca comece. Tiram o drama do guião.

Isso significa decisões aborrecidas: sair mais cedo, evitar o atalho por aquela estrada secundária íngreme, ignorar a pressão do SUV impaciente colado ao seu para-choques. Significa aceitar menos ego e mais margem. Em estradas geladas, não está só a conduzir o seu carro; está a conduzir as expectativas de toda a gente à sua volta. Quando resiste ao impulso de “acompanhar o trânsito”, está a proteger discretamente o desconhecido atrás, que vai copiar a sua velocidade sem pensar.

A um nível humano, conduzir no inverno é, na verdade, sobre permissão. Permissão para ser a pessoa que vai devagar, que deixa espaço, que recusa o mito de que “é só ir com tudo”. Todos nos lembramos da vez em que o carro sacudiu numa ponte gelada e o coração quase subiu à garganta. Essa memória é o seu melhor sistema de segurança - se a ouvir, em vez de a ignorar.

Numa manhã fria e cintilante, o verdadeiro teste não é saber corrigir uma derrapagem. É criar um dia em que ninguém no seu carro sequer se apercebe de que a estrada estava pronta para o fazer escorregar.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
O mito perigoso “Dar um toque de gás” no gelo reduz ainda mais a aderência Perceber por que razão um hábito comum aumenta o risco de derrapagem
A técnica correta Aceleração, travagem e direção ultra progressivas, um gesto de cada vez Adotar um método simples e concreto para manter o controlo no inverno
Mudança de mentalidade Ser um “bom condutor no inverno” é evitar a derrapagem em vez de a “recuperar” Repensar a condução e reduzir o stress em estradas geladas

FAQ:

  • Qual é o principal mito da condução no inverno em estradas com gelo? O grande mito é que deve “passar à força” pelo gelo com mais acelerador ou velocidade para não ficar preso, quando na realidade isso faz com que os pneus percam a pouca aderência que têm.
  • Porque é que as minhas rodas patinam quando tento acelerar no gelo? Porque o limite de aderência do pneu no gelo é minúsculo; um toque brusco no acelerador pede mais tração do que o piso consegue dar, e a borracha acaba por patinar sobre uma fina película de água.
  • É mais seguro usar mudanças baixas ou altas no gelo? Para arrancar, muitos instrutores sugerem usar uma mudança mais alta do que o habitual (como a segunda), para que menos binário chegue às rodas, facilitando um arranque suave sem patinagem.
  • Devo desligar o controlo de tração em estradas com gelo? Na maioria das situações, é mais seguro manter os sistemas de tração e estabilidade ligados, pois reduzem a patinagem e ajudam a manter o carro direito; só cenários muito específicos de ficar atolado na neve podem justificar desligá-los por breves momentos.
  • Que velocidade é “segura” em gelo negro? Não há um número mágico; a velocidade segura é aquela a que consegue parar suavemente dentro da distância que consegue ver, usando apenas travagem suave - e em condições de gelo isso costuma ser muito mais lento do que imagina.

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