A água estava quase a ferver, o espelho da casa de banho já embaciado, quando a Emma voltou a senti-lo.
Aquela comichão aguda, rastejante, ao longo das canelas, que nenhuma quantidade de coçar parecia acalmar. Rodou a torneira para mais quente, como todos fazemos, na esperança de que o calor significasse conforto. Não significou. Quando saiu, a pele estava avermelhada, repuxada e a começar a descamar à volta dos tornozelos.
Mais tarde, sentada na beira da cama, voltou a esfregar a mesma mancha vermelha, ligeiramente irritada e estranhamente velha. Era apenas novembro. O seu camisola de lã ainda cheirava a novo. E, no entanto, o corpo já trazia as primeiras assinaturas do inverno. Seco, reativo, um pouco zangado.
Perguntou-se se isto era apenas “envelhecer” ou se estava a fazer alguma coisa errada no duche. Um dermatologista diria: as duas coisas. E essa resposta leva a um sítio inesperado.
Porque é que o inverno transforma a sua pele numa comichão constante
As primeiras manhãs frias nunca chegam sozinhas. Trazem aquecimento central, duches mais quentes, collants grossos, cachecóis ásperos e aquela sensação elétrica quando tira uma camisola e o cabelo se levanta. Escondido em todo esse conforto está o verdadeiro vilão: um ar brutalmente seco que “bebe” a humidade mais depressa do que a sua pele a consegue repor.
A barreira cutânea - esse escudo fino e invisível de lípidos e células - adora equilíbrio. O inverno destrói esse equilíbrio. Os radiadores no interior baixam a humidade, o vento no exterior remove os óleos de superfície e, no duche, sem dar por isso, remove o que ainda restava. O resultado não é apenas “pele seca”. São microfissuras, inflamação e terminações nervosas a gritar por alívio. Esse grito sente-se como comichão.
Quando a comichão começa, o cérebro entra no jogo. Coça-se, danifica ainda mais a barreira, cria pequenas fissuras e torna os nervos ainda mais reativos. É assim que uma simples zona de secura de inverno se transforma numa batalha que dura toda a estação.
Os dermatologistas veem isto todos os anos, pontualmente. As consultas enchem-se de pessoas que, de repente, já não toleram os mesmos produtos que usaram todo o verão. Pernas que em julho pareciam lisas mostram agora linhas brancas quando passa uma unha. As mãos ficam ásperas, quase “gizentas”. Um estudo francês concluiu que, nos meses frios, quase metade dos adultos relata aumento de comichão e secura, mesmo sem uma doença de pele diagnosticada. O padrão é tão previsível que alguns médicos, a brincar, lhe chamam “a época da comichão”.
As crianças com pele atópica chegam cobertas de marcas de unhas nos cotovelos e atrás dos joelhos. Enfermeiros aparecem com os nós dos dedos gretados de tantas lavagens de mãos em edifícios aquecidos. Trabalhadores de escritório queixam-se de que a roupa de inverno “smart casual” de repente parece lixa às 16h. Todos acham que algo dramático mudou dentro do corpo.
Na realidade, foi o ambiente que mudou primeiro. Os nossos hábitos foram atrás.
Quando os dermatologistas explicam, a ciência é teimosamente simples. O ar frio retém menos humidade. A baixa humidade puxa água das camadas superiores da pele através de um processo chamado perda de água transepidérmica. A água quente e os tensioativos agressivos (aquilo que faz o gel de banho fazer espuma) removem os óleos naturais, que normalmente funcionam como um hidratante de libertação lenta e como escudo.
Quando esses óleos desaparecem, a camada externa da pele - o estrato córneo - fica mais parecida com uma parede rachada do que com uma barreira sólida. Irritantes de sabonetes, fragrâncias e até detergentes da roupa infiltram-se mais facilmente. As terminações nervosas perto da superfície são ativadas. É isto que transforma um simples duche no início de um ciclo de comichão de 24 horas.
A reviravolta é que muitas das coisas que usamos para nos sentirmos “limpos” e “aconchegados” no inverno estão, discretamente, a piorar tudo. Duches muito quentes. Banhos longos. Gel de banho muito perfumado. Todos esses pequenos rituais que parecem autocuidado podem ser, pelo menos para a pele, o oposto.
A rotina de duche que os dermatologistas recomendam discretamente
A rotina que a maioria dos especialistas descreve soa quase aborrecida: água morna, duches mais curtos, produtos de limpeza suaves e sem perfume usados apenas onde faz sentido - axilas, virilhas, pés, zonas que realmente transpiram. O resto do corpo, na maior parte dos dias, precisa sobretudo de um enxaguamento rápido, não de uma esfrega diária com gel espumoso. Sejamos honestos: quase ninguém faz isto todos os dias.
Ainda assim, quando os doentes experimentam este duche “aborrecido”, a pele muitas vezes acalma em poucas semanas. O truque é tratar o duche como um momento médico, e não como uma fantasia de spa. Temperatura entre 36–38°C, quente o suficiente para relaxar, não tão quente que embacie a divisão. Dez minutos ou menos. Nada de panos ásperos em zonas já inflamadas. E absolutamente nada de produtos “purificantes” agressivos que prometem desintoxicar tudo.
Os dermatologistas também adoram um gesto preciso: a regra dos três minutos. Assim que sai do duche, seca-se com toques - não esfrega - deixando a pele ligeiramente húmida. Depois aplica um creme ou bálsamo rico e sem perfume, da cabeça aos pés, dentro de três minutos, “selando” essa água. Esse único hábito transforma o duche de um evento de secagem num tratamento de hidratação.
O maior inimigo no inverno não é a sujidade. É lavar em excesso e aquecer em excesso. Muitas pessoas ensaboam o corpo todo uma ou duas vezes por dia e depois perguntam-se porque é que as canelas parecem lixa em janeiro. Para piorar, vão alternando entre um esfoliante, um gel de banho perfumado e um produto “detox” que deixa a pele a chiar. Para um dermatologista, “a chiar” significa: despojada.
Depois vêm as pequenas escolhas diárias que pioram discretamente. Ficar debaixo da água mais quente para “aquecer” depois do trajeto. Depilar à pressa sem deslizamento, e depois passar o dia com calças apertadas. Colocar perfume diretamente no pescoço, onde a pele já está um pouco vermelha. Dormir com pijamas de polar depois de um banho demasiado longo. Nada disto é um crime.
Em conjunto, constroem a tempestade perfeita para a comichão de inverno. Acorda às 3 da manhã, unhas cravadas nas pernas, a perguntar-se porque é que o seu creme de luxo não está a resultar. A resposta, normalmente, não é o creme. É a rotina à volta dele.
“Pense no seu duche como o momento em que decide se a sua pele vai passar as próximas 24 horas a lutar ou a curar”, explica a Dra. Léa Martin, dermatologista em Paris. “A temperatura da água, o produto de limpeza e o que faz nos primeiros minutos depois de sair importam muito mais do que a loção corporal mais sofisticada.”
Isto pode soar exigente, sobretudo em manhãs escuras em que só apetece um jato de água quente nos ombros. Mas uma rotina de duche à prova de inverno não tem tanto a ver com disciplina e mais com trocar alguns reflexos. Baixe um pouco a temperatura. Escolha um creme simples e espesso em vez de um sedoso e perfumado. Trate pernas e braços com a mesma atenção que dá ao rosto.
- Mantenha os duches curtos e com água morna para proteger a barreira cutânea.
- Use um produto de limpeza suave e sem perfume apenas nas zonas-chave.
- Hidrate nos três minutos após sair, com a pele ligeiramente húmida.
- Prefira cremes ou bálsamos mais ricos em vez de loções leves “de verão”.
- Ouça os sinais precoces: repuxamento e descamação discreta são as primeiras luzes de aviso.
Viver com a pele de inverno em vez de lutar contra ela
A verdade que quase ninguém diz é que a pele de inverno raramente é “má” pele. É um corpo a tentar adaptar-se a uma estação agressiva com ferramentas para as quais não evoluiu: radiadores, duches longos e quentes, sapatos fechados, tecidos sintéticos. Quando percebe isto, a sua rotina deixa de ser uma lista de regras e passa a parecer mais uma cooperação.
Pequenos ajustes somam-se. Um humidificador a zumbir baixinho no quarto. Trocar o gel de banho por um produto de limpeza em creme que mal faz espuma. Deixar o seu creme corporal rico preferido mesmo ao lado da toalha, para o usar enquanto a pele ainda está húmida. Vestir camadas de algodão por baixo daquela camisola de lã que lhe faz comichão nos braços a meio da manhã.
Num nível mais profundo, a comichão também pode ser uma forma de feedback. Um sinal de que está a levar o corpo a extremos - demasiado quente, demasiado frio, demasiado seco - sem lhe dar tempo para recuperar. Num domingo à noite, quando o fim de semana se vai embora e o aquecimento volta a ligar, essas manchas vermelhas nas pernas ou o repuxamento nas mãos são mensagens silenciosas. Não um fracasso. Um lembrete de que a sua pele tem voz - e o inverno apenas a torna mais alta.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| O inverno seca a barreira cutânea | O ar frio e o aquecimento interior aumentam a perda de água e irritam as terminações nervosas | Ajuda a perceber porque a comichão aumenta quando a temperatura desce |
| Os hábitos no duche podem prejudicar ou ajudar | A temperatura da água, o tipo de produto de limpeza e a duração do duche mudam a forma como a pele se comporta | Dá-lhe “alavancas” diretas para reduzir a comichão sem comprar dezenas de produtos |
| Regra dos três minutos para hidratar | Aplicar um creme rico na pele húmida retém a água e repara a barreira | Oferece um passo simples e realista que pode transformar o conforto diário |
Perguntas frequentes (FAQ)
- Porque é que a minha pele dá mais comichão logo após um duche quente? A água quente remove os óleos naturais e aumenta o fluxo sanguíneo à superfície, expondo terminações nervosas e tornando mais intensas a secura e as microirritações já existentes.
- Com que frequência devo tomar duche no inverno para proteger a pele? Para a maioria dos adultos, uma vez por dia ou dia sim dia não é suficiente, limitando o sabonete/gel a zonas que transpiram mais, em vez de esfregar do pescoço aos pés todas as vezes.
- Que tipo de gel de banho é melhor para pele com comichão no inverno? Os dermatologistas costumam recomendar produtos de limpeza sem perfume e sem sabão, indicados para pele seca ou sensível, em textura creme ou óleo, em vez de géis muito espumosos.
- É melhor usar loção, creme ou óleo quando a pele está muito seca? Para secura intensa no inverno, um creme espesso ou um bálsamo com ingredientes como ceramidas, glicerina ou manteiga de karité costuma funcionar melhor do que uma loção leve ou um óleo corporal “seco”.
- Quando devo consultar um dermatologista por causa da comichão de inverno? Se a comichão não o deixa dormir, provoca sangramento ao coçar, se espalha de repente, ou se vem acompanhada de dor ou exsudação, é mais seguro fazer uma avaliação profissional do que tentar resolver sozinho.
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