A primeira vez que fui assaltado, fiquei mais irritado do que aterrorizado.
Algures numa rua lateral de Bogotá, as minhas pernas eram gelatina, o meu coração tentava sair-me pela garganta e o meu cérebro entretinha-se a fazer contas mentais com pesos que eu mal compreendia. Dois adolescentes - um a tremer ligeiramente, outro estranhamente calmo - pediram-me a carteira. Entreguei-a, com as palmas a suar, e vi os meus cartões, o documento de identificação e dois dias de dinheiro desaparecerem na noite como um truque de magia mal feito. O verdadeiro choque veio mais tarde, já de volta ao hostel, quando percebi que tinha perdido não só dinheiro, mas a minha sensação de à-vontade.
Nessa noite, outro viajante olhou para mim e disse: “Epá, não andas por aí com a tua carteira a sério à vista.” Depois tirou do bolso uma carteira de pele sebosa, meio partida, com apenas algumas notas amarrotadas lá dentro, e sorriu. “Esta é a minha isca”, disse ele. E aquele objectozinho minúsculo e ridículo mudou para sempre a forma como penso sobre segurança em viagens a solo.
O medo silencioso que vive na tua mochila
Viajar sozinho parece glamoroso no Instagram: pores do sol, scooters, cervejas em rooftops, sorrisos e marcas de bronzeado. O que ninguém publica é a parte em que, à noite, as chaves tilintam na tua mão como uma arma improvisada, ou a forma como te enrijeces quando os passos atrás de ti aceleram. Todos já tivemos aquele momento em que atravessamos a rua “só por via das dúvidas”, fingindo que é por causa da vista. Esse medo de baixa intensidade, o zumbido discreto de “algo pode correr mal”, viaja contigo, enfiado algures entre o guia e as meias suplentes.
A maioria de nós lida com esse medo cruzando os dedos e esperando que nada de mau aconteça. Sejamos honestos: ninguém ensaia todos os dias o que faria num assalto. Lembras-te de conselhos vagos do teu pai (“Não sejas herói”) e de blogs de viagem aleatórios sobre “estar atento”. Depois chegas a uma cidade nova, cheio de adrenalina e café barato, e toda essa teoria sensata derrete no segundo em que alguém te pede indicações ou avistas uma banca de comida de rua à qual não consegues resistir.
É aí que a ideia da carteira falsa entra de mansinho. Não te torna invencível nem destemido. Apenas reconhece, com calma, que sim, coisas podem acontecer. E, se acontecerem, preferes entregar dez ou vinte libras e uns cartões caducados do que a tua vida inteira dobrada num pedaço de pele.
A primeira vez que praticas abdicar de alguma coisa
O maior benefício de uma carteira-isca não é o objecto em si. É o que faz à tua mentalidade. A primeira vez que um amigo me mostrou a dele, senti-me estranhamente desconfortável. Parecia admitir derrota antes de acontecer o que quer que fosse, como se ao preparar-me para um assalto o estivesse a invocar. O cérebro humano é supersticioso assim, mesmo quando sabemos melhor.
Mas há outra forma de olhar para isto: não estás à espera do perigo, estás a ensaiar a tua rota de saída. Estás a dar ao teu “eu” do futuro um guião para o pior cenário, para não ficares bloqueado. Porque isso é o que realmente assusta a maioria das pessoas nesses momentos: não é a perda de dinheiro, é o medo de ficar paralisado, de dizer a coisa errada, de fazer algo estúpido. Uma carteira falsa é como um pequeno pacto silencioso contigo próprio - se isto acontecer, é isto que fazes, e vais-te embora.
O ensaio emocional
Experimenta agora mesmo, só na tua cabeça: imagina que alguém se coloca à tua frente, agressivo, a exigir a tua carteira. Sentes o estômago a cair, as mãos a adormecer, os ouvidos cheios de ruído. Agora imagina que estendes a mão com calma para um bolso e tiras uma carteirazeca gasta que parece legítima, com algumas notas e um cartão de autocarro antigo. Entregas. Sentes medo, claro que sim, mas já decidiste: é isto que lhes dás, e depois recuas.
Esse ensaio mental é estranhamente tranquilizador. Não torna o mundo menos caótico, mas dá-te uma saída. Já não estás agarrado à ideia de “tenho de proteger os meus cartões, o meu documento, tudo”. Já ensaiaste largar alguma coisa. E isso, de uma forma estranha, é uma das formas mais puras de resiliência em viagem: saber o que estás disposto a perder para manter o que realmente importa.
Como é, na prática, uma carteira falsa na vida real
Se estás a imaginar um gadget táctico, de grau militar, podes relaxar. As melhores carteiras falsas parecem aborrecidas. Gastas nas bordas, ligeiramente pirosas, o tipo de coisa que o teu tio compraria numa loja de recordações do aeroporto. O objectivo é simples: deve parecer tentadoramente real a um olhar rápido, mas conter quase nada de que te vás lamentar.
A maioria dos viajantes de longo curso que conheço guarda lá dentro três coisas: uma pequena quantia em dinheiro local, um ou dois cartões bancários antigos (caducados ou cancelados) e algo aleatório como um cartão de fidelização de supermercado. Nada com informação sensível, sem carta de condução, sem um cartão de crédito a funcionar. Por fora, parece legítima. Por dentro, é basicamente teatro.
Onde fica no teu corpo
O outro truque é onde a guardas. A carteira falsa fica onde um assaltante espera que esteja uma carteira: num bolso de trás, num bolso solto do casaco, no topo da mochila. O teu dinheiro e cartões a sério ficam noutro sítio - num cinto porta-dinheiro por baixo da roupa, escondidos num bolso interior com fecho, divididos entre um cacifo e um sapato, o que resultar para ti. O ponto é separação, não paranóia.
Conheci uma mulher em Hanói que guardava o dinheiro verdadeiro numa bolsinha minúscula presa com alfinete-de-ama à costura interior das calças. Tinha aperfeiçoado este movimento rápido e dramático em que batia no bolso de trás e “descobria” a carteira-isca como se só naquele instante se lembrasse de onde estava. “Não estás a representar para eles”, disse ela. “Estás a representar para os teus nervos. Queres despachar aquilo depressa.” Isso ficou comigo: segurança não como arame farpado, mas como coreografia.
Quando o dinheiro fica mais barato do que o orgulho
Há uma parte teimosa em muitos viajantes que detesta a ideia de entregar seja o que for. Parece humilhante, como se a rua te “ganhasse”. Especialmente se estás habituado a ter controlo em casa, a ideia de te renderes de propósito pode parecer quase impensável. Mas depois de passares por um susto a sério, percebes uma coisa brutalmente simples: o teu orgulho não vale as tuas costelas.
A carteira falsa é um lembrete de que o dinheiro é substituível e o teu corpo não. Isto soa a cliché até estares ao telefone com a tua mãe às 3 da manhã, de um hospital estrangeiro, ou a ler o teu próprio nome num formulário da polícia escrito numa língua que não entendes. Uma carteira-isca não impede o mal por completo, claro. Ainda assim, altera as probabilidades, empurra o momento para uma transacção em vez de caos.
Há também um estranho efeito emocional depois de teres uma isca. Sentes-te mais disponível para explorar. Não para te atirares para situações obviamente perigosas, mas para andar mais um quarteirão, para dizer sim a um mercado nocturno, para te sentares num banco de jardim e simplesmente estar. Saber que tens um objecto “sacrificável” faz com que o resto das tuas coisas - o passaporte, o telefone, o teu sentido de identidade - pareça menos permanentemente frágil.
Os pequenos rituais de que ninguém fala
Viajantes a solo coleccionam rituais estranhos como outras pessoas coleccionam ímanes de frigorífico. Um tipo em Lisboa disse-me que, quando anda por ruas escuras, faz sempre tilintar umas moedas na mão, para soar menos a alvo fácil. Uma mulher na Cidade do México disse que caminha sempre com ar decidido, mesmo quando está completamente perdida, e só consulta mapas dentro de lojas. Estes rituais podem não ser perfeitos, mas fazem-te sentir mais preparado, mais ancorado.
Adicionar uma carteira falsa a essa mistura é só mais um hábito de bastidores. Podes reforçá-la uma vez por semana, como quem enche uma garrafa de água. Podes trocar moedas ao cruzar fronteiras, mantendo apenas o suficiente para parecer real, mas não o suficiente para doer. É banal e um bocado chato, e sim, muita gente não se dá ao trabalho. No entanto, quem mantém a rotina costuma andar por ruas desconhecidas com um pouco mais de leveza nos ombros.
O cheiro a pele barata e a tranquilidade
Lembro-me de preparar a minha primeira carteira falsa numa cozinha de hostel, com o cheiro a torradas queimadas e café barato a flutuar no ar. A carteira em si era rígida e plastificada, comprada pelo equivalente a três libras num mercado de Banguecoque. Meti lá dentro algumas notas gastas, um cartão bancário antigo que eu tinha cancelado meses antes e um Oyster card desbotado de Londres. Senti aquilo como um pequeno ritual, quase cerimonial, como se estivesse a enfiar uma oferenda aos deuses do caos no bolso.
Mais tarde nessa semana, a caminhar por um bazar nocturno apinhado, dei por mim a tocar no bolso da frente onde os meus cartões verdadeiros estavam escondidos e depois a bater no bolso de trás onde a isca estava. Duas camadas. Dois futuros possíveis. Não me tornou destemido. Mas fez-me sentir uma espécie de preparado silencioso e teimoso - e essa sensação vale ouro quando estás a milhares de quilómetros de casa.
Quando o pior acontece
Aqui está a parte que ninguém gosta de dizer claramente: por vezes, mesmo as melhores precauções não correm exactamente como planeado. Um assaltante pode exigir também o teu telefone. Pode revistar-te. Pode estar mais desesperado ou mais nervoso do que a história que ensaiaste na cabeça. Nenhum truque, nenhuma carteira, nenhuma esperteza garante um desfecho limpo.
Ainda assim, ter essa isca pode cortar segundos à interacção - e às vezes isso é tudo. Estendes a mão, entregas, não discutes, não negocias. Deixas que sintam que ficaram com o prémio enquanto tu, invisivelmente, te agarras ao resto da tua viagem. Vais-te embora abalado, talvez furioso, mas não destruído da mesma forma.
Vários viajantes com quem falei que usaram uma carteira-isca dizem o mesmo: a recuperação emocional foi mais rápida. Ficaram irritados por perder dinheiro, claro, mas não arrasados com a burocracia de perder cartões e documentos, ou com o pavor de ligar para bancos com Wi‑Fi intermitente. Isso importa. Qualquer coisa que te ajude a continuar a viajar, em vez de voltares para casa mais cedo com o rabo entre as pernas, tem valor real.
Medo, liberdade e aquela carteirazeca esfarrapada
Viajar sozinho vai sempre envolver uma tensão entre medo e liberdade. Parte da magia está precisamente em não saber o que está ao virar da esquina. Ruas de cidade ao anoitecer, estações de autocarros ao amanhecer, carros de desconhecidos, camaratas de hostel: tudo é ligeiramente arriscado, e esse risco é metade da história que vais contar mais tarde. O objectivo não é apagar todos os perigos; é dar-te ferramentas para que o risco não te possua por completo.
Uma carteira falsa é uma ferramenta pequena, quase embaraçosamente simples. Ainda assim, dentro dela vive uma ideia maior sobre como nos movemos no mundo. Aceitas que coisas más podem acontecer sem deixar que definam a tua viagem. Preparas-te não por pânico, mas por uma espécie de auto-respeito silencioso e quase aborrecido: eu gostava de voltar para casa com todos os ossos e com a maioria das histórias.
Por isso, se estás a fechar a mochila para a tua primeira viagem a solo - ou a décima quinta - talvez metas lá dentro uma carteira barata e gasta. Põe um pouco de dinheiro, um cartão morto, algo que a faça parecer real o suficiente. Deixa-a ali como um duplo de acção, pronta a levar o impacto para que tu não tenhas de o levar. E depois sai para o ruído e a cor do mundo, um pouco mais descontraído, sabendo que, se alguma vez chegares àquele momento horrível do “Dá-me a carteira”, já ensaiaste como te vais embora.
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